Os números não mentem: 81% dos brasileiros não confiam no Congresso Nacional, segundo a mais recente pesquisa Atlas/Bloomberg. É a instituição menos crível do país, superando até mesmo o governo federal e as Forças Armadas em rejeição. Mas aqui reside um paradoxo grotesco: o mesmo eleitor que despreza o Legislativo é o que, ciclicamente, reconduz aos plenários os mesmos políticos que diz odiar.
Não há inocentes nessa equação. Se o Congresso é um espelho distorcido da sociedade, ele reflete, acima de tudo, a contradição de um eleitorado que cobra virtudes da classe política mas não as exige na urna. Reeleger deputados e senadores que sumiram em Brasília, que não apresentaram projetos relevantes ou que se envolveram em escândalos é um atestado de comodismo cívico.
O teatro da ineficiência
Os parlamentares brasileiros operam sob uma lógica perversa: sabem que podem desaparecer por três anos e sete meses, desde que reapareçam no oitavo, em ano eleitoral, com um punhado de emendas e promessas vazias. E funciona. O eleitor médio tem memória curta e, muitas vezes, vota movido por lealdades regionais, populismo ou simples desconhecimento do trabalho (ou falta dele) de seu representante.
A pesquisa mostra que a desconfiança no Congresso aumentou 24% desde 2023. Mas o que mudou, de fato, no comportamento do eleitor? Quem foi às ruas exigir prestação de contas? Quem acompanhou votações cruciais? Quem cobrou explicações sobre ausências e votos contrários a promessas de campanha?
O STF na mira: Crise de legitimidade ou desvio de foco?
Enquanto o Congresso afunda na descrença, o Supremo Tribunal Federal (STF) também enfrenta divisões: 51,3% dos brasileiros não confiam na Corte, e quase metade (45,4%) acredita que o país vive uma “ditadura do Judiciário”. Mas essa narrativa, muitas vezes inflamada por políticos que usam o STF como bode expiatório, serve para desviar o foco do verdadeiro problema: um Legislativo omisso e inoperante.
Se o Judiciário avança sobre atribuições do Congresso, é porque o Parlamento abre espaço ao se tornar irrelevante. Quando deputados e senadores não legislam, não fiscalizam e não representam, outros poderes ocupam o vácuo.
O eleitor precisa acordar – e agir
Não adianta reclamar depois. A mudança começa no voto, mas não termina nele. Se o brasileiro quer um Congresso melhor, precisa:
- Votar com critério, investigando o histórico do candidato – não apenas seu marketing eleitoral.
- Cobrar diariamente, acompanhando votações, participando de audiências públicas e pressionando por transparência.
- Abandonar o culto a personalidades e priorizar propostas, não promessas.
- Exigir o cumprimento de mandatos, punindo nas urnas quem some após ser eleito.
O Congresso não vai mudar sozinho. Ele é o que o eleitor permite que ele seja. Enquanto o brasileiro continuar reelegendo os mesmos nomes, alimentando o clientelismo e ignorando a política no dia a dia, a desconfiança será apenas um sintoma de uma doença que nós mesmos perpetuamos.
Chega de hipocrisia. Ou o eleitor assume seu papel de fiscal ou a mediocridade do Parlamento será, sempre, um reflexo da nossa própria negligência.
Por Damatta Lucas – Imagem: ChatGPT


