As manifestações da direita e da extrema direita no 7 de Setembro de 2025 entraram para a história não apenas pelo número de participantes, mas pelo gesto que se tornou o símbolo maior de sua contradição: a exibição de uma bandeira gigante dos Estados Unidos na Avenida Paulista, em pleno Dia da Independência do Brasil. O que parecia um ato de ignorância ou um “tiro no pé” político, na verdade, carrega um cálculo estratégico — uma mensagem dirigida diretamente a Donald Trump.
De fora, a cena foi surreal. No coração de São Paulo, cidade mais prejudicada pelo tarifaço de Trump contra produtos brasileiros, o público assistiu a um espetáculo que mais lembrava o 4 de Julho norte-americano do que o 7 de Setembro brasileiro. A exibição do estandarte estrangeiro, acompanhada por bonecos de Trump em outras cidades, foi recebida por muitos brasileiros como uma traição, um gesto de vassalagem explícita.
Uma bandeira como recado
A bandeira americana tremulando na Paulista não deve ser vista apenas como um ato de burrice política. Trata-se de um recado. O gesto foi articulado pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), hoje mais tempo em Washington do que em Brasília, numa espécie de “exílio voluntário” ao lado da família Trump. O objetivo é claro: sinalizar ao ex-presidente dos EUA que os bolsonaristas contam com sua intervenção.
A mensagem implícita é para que Trump amplie pressões e sanções contra autoridades brasileiras, em especial ministros do Supremo Tribunal Federal, enquanto Jair Bolsonaro enfrenta julgamento por tentativa de golpe de Estado e pode receber até 43 anos de prisão. A direita brasileira, incapaz de sustentar sua narrativa internamente, aposta em tutores externos para sobreviver.
O silêncio nas redes e o temor do “bandeirão”
Curiosamente, após os atos, houve um silêncio ensurdecedor nas redes bolsonaristas. A avaliação nos bastidores é de que o “bandeirão” virou o maior erro de comunicação do movimento desde sua origem. Pesquisas recentes mostram que 72% dos brasileiros são contra as tarifas impostas por Trump, e a imagem de uma Avenida Paulista vestida de estrelas e listras caiu como presente para o marqueteiro de Lula, Sidônio Palmeira.
Não por acaso, o governo petista já estuda explorar o episódio como símbolo da luta pela soberania nacional. O tiro saiu pela culatra: em vez de reforçar o discurso bolsonarista de “patriotismo”, a direita entregou de bandeja a narrativa de que são falsos patriotas, dependentes de aval estrangeiro.
Lula e a oportunidade de recuperar a bandeira verde e amarela
A cena da bandeira americana pode marcar um ponto de virada simbólico. Desde 2018, a extrema direita sequestrou o verde e amarelo e o transformou em bandeira exclusiva do bolsonarismo. Agora, com a imagem do “bandeirão” dos EUA correndo o mundo, Lula tem a oportunidade de recolocar os símbolos nacionais de volta ao colo da democracia.
É a chance de reforçar a mensagem de soberania, mostrar que o Brasil não aceita vassalagem a nenhuma potência e que sua independência deve ser celebrada com orgulho próprio. Ao mesmo tempo, o episódio escancara para o eleitorado a submissão da direita brasileira a Donald Trump — um líder estrangeiro que, em nome de seus interesses, já atacou o Brasil com tarifas pesadas e agora tenta interferir diretamente em seus assuntos internos.
O falso patriotismo desmascarado
O 7 de Setembro de 2025 ficará marcado não pela força da multidão bolsonarista, mas pelo gesto que revelou o DNA do movimento: o servilismo. A bandeira americana erguida na Paulista não representa apenas um erro de cálculo, mas a prova de que a extrema direita brasileira prefere alinhar-se a um governo estrangeiro do que respeitar a soberania de seu próprio país.
Enquanto isso, Lula tem diante de si uma oportunidade política rara: recuperar o discurso da independência nacional, expor o falso patriotismo bolsonarista e reforçar que, no Brasil, a única bandeira que deve tremular é a verde e amarela.
Por Damatta Lucas – Imagem: ChatGPT


