Por Severino Severo para Site Clique PI
Basear-se em conteúdos políticos informativos tendo como fontes a imprensa brasileira tornou-se, nos últimos anos, um exercício cada vez mais difícil. Em um ambiente já saturado pela avalanche de fake news que circula nas redes sociais e pela atuação de influenciadores digitais fortemente alinhados a posições ideológicas ou interesses econômicos, esperava-se que o jornalismo profissional fosse o porto seguro da informação confiável. Mas não é exatamente isso que muitos brasileiros encontram.
O papel essencial da imprensa em uma democracia é simples e ao mesmo tempo exigente: levar ao público a informação apurada, verdadeira e contextualizada. Não se trata de defender lados ou interesses específicos. O jornalismo existe justamente para cumprir uma função pública — revelar fatos, confrontar versões e ajudar a formar uma opinião pública baseada na verdade. Doa a quem doer.
Entretanto, o que se observa em parte da mídia brasileira é um cenário preocupante. Colunistas, blogueiros e comentaristas ganharam espaço e influência, muitas vezes transformados em protagonistas do debate público. O problema não está na pluralidade de vozes, algo saudável em qualquer democracia, mas no fato de que muitos desses personagens passaram a atuar como replicadores de narrativas prontas, alinhadas às orientações editoriais ou aos interesses econômicos das corporações de comunicação.
Nesse contexto, o jornalista — profissional historicamente associado à investigação e à independência — corre o risco de tornar-se apenas uma peça de engrenagem dentro de estruturas empresariais guiadas por interesses que vão além da informação. A crítica de que parte da imprensa opera como instrumento de poder econômico ou político não é nova. Ela acompanha a história do jornalismo brasileiro e ressurge sempre que o debate público se torna mais acirrado.
Um dos exemplos frequentemente apontados pelos críticos é o telejornal mais tradicional da televisão brasileira, o Jornal Nacional, exibido pelo Grupo Globo. Ao longo de décadas, o programa consolidou-se como uma das principais fontes de informação política para milhões de brasileiros. Ainda assim, também se tornou alvo recorrente de acusações de parcialidade editorial e de seleção de pautas orientadas por interesses econômicos e políticos.
O próprio Grupo Globo já reconheceu publicamente, em determinados momentos, equívocos editoriais cometidos no passado, especialmente na cobertura de episódios históricos do país. Contudo, para críticos da mídia, essas autocríticas teriam servido mais como gestos simbólicos do que como mudanças estruturais na forma de fazer jornalismo.
O problema, no entanto, não se restringe a uma única empresa. Grandes veículos tradicionais, como a Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, também costumam ser apontados por analistas e setores da sociedade como parte de um sistema midiático que, ao longo da história, manteve proximidade com os centros de poder político e econômico do país.
A história da imprensa brasileira durante a Ditadura Militar no Brasil (1964–1985) frequentemente é citada nesse debate. Durante aquele período, parte dos veículos de comunicação apoiou ou tolerou o regime autoritário, enquanto jornalistas que denunciavam abusos, perseguições e violações de direitos humanos enfrentaram censura, prisão e, em alguns casos, desapareceram. Esse passado ainda pesa sobre a memória institucional da mídia brasileira e alimenta críticas recorrentes sobre sua relação com o poder.
Em anos eleitorais, o debate sobre a atuação da imprensa ganha intensidade. Em 2026, como em outros ciclos eleitorais, o país volta a assistir disputas narrativas acirradas, acusações de manipulação de informação e tentativas de influenciar a opinião pública por meio da cobertura política.
Nesse cenário, a responsabilidade do cidadão torna-se ainda maior. Em uma era de abundância informativa, a defesa da democracia passa também pela capacidade crítica do público. Ler diferentes fontes, comparar versões, verificar dados e desconfiar de narrativas simplificadoras tornou-se parte essencial da cidadania.
A imprensa continua sendo uma instituição fundamental para qualquer sociedade democrática. Mas justamente por isso deve ser permanentemente questionada, cobrada e observada. Quando a informação deixa de servir ao interesse público e passa a responder apenas a interesses econômicos ou políticos, quem perde é a própria democracia.
A sociedade brasileira precisa recuperar um princípio básico: informação não é mercadoria ideológica nem ferramenta de manipulação. É um direito do cidadão.
E direitos, em uma democracia, não podem ser terceirizados.
Imagem gerada por IA Chat GPT


