A menos de um ano do início oficial da corrida presidencial, o campo da direita e da extrema direita no Brasil segue sem uma liderança clara e com sinais evidentes de desarticulação interna. A ausência de consenso em torno de um nome competitivo para 2026, somada às disputas públicas entre algumas de suas principais lideranças, pode criar um ambiente político mais confortável para a tentativa de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O embate mais recente ilustra bem esse cenário. O presidente nacional do Progressistas (PP), senador Ciro Nogueira, e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), protagonizaram um confronto aberto nas redes sociais e na imprensa. A origem da disputa foi uma entrevista concedida por Ciro ao jornal O Globo, na qual afirmou que apenas dois nomes teriam hoje condições reais de contar com o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o governador do Paraná, Ratinho Júnior.
A declaração foi interpretada por Caiado como uma tentativa de excluir outras pré-candidaturas — inclusive a sua — do debate eleitoral. O governador reagiu duramente, acusando o senador de “prestar um desserviço à direita” e de tentar se posicionar como porta-voz de Bolsonaro sem legitimidade para isso. Em tom mais incisivo, Caiado afirmou ainda que a “ansiedade” de Ciro em se colocar como possível candidato a vice-presidente de Tarcísio “é vergonhosa” e que a movimentação do senador já o coloca publicamente nesse papel. Ciro respondeu ironizando a reação e reafirmando que o verdadeiro adversário do campo conservador é Lula.
Caiado também fez referência a Antônio Carlos Magalhães, político baiano de grande expressão nacional. “Ele nos ensinava que, para ter voz nacional, é preciso ser respeitado em seu estado. Lembro ao Ciro que tenho 88% de aprovação em Goiás nos últimos três anos, a maior entre todos os governadores. As mesmas pesquisas mostram que Ciro Nogueira não tem forças sequer para se reeleger senador no seu estado, o nosso querido Piauí”, disse.
O governador goiano lembrou isso baseado em pesquisa divulgada pelo Instituto Real Time Big Data, em 30 de setembro, que mostra que Ciro enfrentaria desgaste para concorrer à reeleição para o Senado em 2026 pelo Piauí, uma vez o senador Marcelo Castro (MDB) aparece com 28% das intenções de voto, seguido pelo deputado federal Júlio César (PSD), que tem 21%. Ciro Nogueira aparece na terceira colocação, com 18%.
O episódio, embora pontual, expôs com clareza um problema mais profundo: a direita brasileira ainda não encontrou um caminho comum desde a inelegibilidade de Bolsonaro, que segue sendo a principal referência para esse eleitorado, mesmo estando inelegível. Sem a presença do ex-presidente na disputa, diferentes lideranças tentam ocupar esse espaço, o que tem levado a uma fragmentação do discurso e à multiplicação de candidaturas — algumas com pouca projeção nacional.
Além de Caiado, nomes como o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) também se movimentam com vistas a 2026, embora nenhum deles tenha, até o momento, conseguido construir uma candidatura viável em escala nacional. A percepção dentro do próprio campo conservador é de que o apoio de Bolsonaro continua sendo decisivo para qualquer projeto competitivo, o que limita as opções e acirra disputas internas.
A insatisfação com a fala de Ciro não se restringiu a Caiado. Romeu Zema, que já anunciou sua intenção de disputar a Presidência, recorreu ao escritor Nelson Rodrigues para expressar seu descontentamento, publicando nas redes sociais a frase: “A maior desgraça da democracia é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas, que são a maioria.” A mensagem foi interpretada como uma crítica direta ao ambiente de disputas e exclusões dentro do próprio campo conservador.
Enquanto isso, Lula trabalha para consolidar sua base de apoio e ampliar alianças no centro político. Beneficiado pela fragmentação dos adversários, o presidente aparece, por ora, como o único nome com presença consolidada em todo o território nacional e com uma estrutura partidária e eleitoral robusta. Analistas avaliam que, se a direita não superar suas divisões nos próximos meses, a eleição de 2026 pode se tornar menos competitiva do que se imaginava no início do ciclo.
Em um país de tradição presidencialista e alta polarização ideológica, a unidade costuma ser determinante para qualquer projeto de poder. A história recente mostra que, sem um candidato forte e com apoio coeso, as chances de vitória diminuem significativamente. A disputa entre Ciro Nogueira e Ronaldo Caiado, portanto, é mais do que uma troca de farpas: é um sintoma de uma crise mais profunda que, se não for resolvida, pode abrir caminho para que Lula conquiste mais quatro anos no Palácio do Planalto.
Possível cenário
Se o impasse persistir e a direita não encontrar um nome de consenso até meados de 2026, o cenário eleitoral pode se tornar ainda mais desfavorável para esse campo político. A dispersão de candidaturas tende a fragmentar o voto conservador no primeiro turno, reduzindo as chances de levar a disputa para uma segunda etapa em condições competitivas.
Nesse contexto, Lula, que já conta com forte estrutura partidária e presença nacional consolidada, pode chegar ao segundo turno com vantagem significativa — ou, em um cenário extremo, até mesmo vencer ainda no primeiro. A história recente da política brasileira mostra que a falta de unidade estratégica costuma custar caro nas urnas, e 2026 pode repetir essa dinâmica caso a direita não supere suas divisões internas.
Por Damatta Lucas – Imagem gerada por IA Chat GPT


