A narrativa permanente: quando o “teria” vira método

Por Fabianna Cascavel para o site Clique PI

Não é de hoje que a jornalista Malu Gaspar, colunista do O Globo, coloca o ministro Alexandre de Moraes no centro de reportagens ancoradas em bastidores, fontes anônimas e relatórios ainda não tornados públicos. O que chama atenção não é a existência da investigação — que deve, evidentemente, seguir seu curso institucional —, mas o padrão reiterado da cobertura.

No caso do Banco Master, a narrativa voltou a ganhar força com a informação de que a Polícia Federal prepara um novo relatório que mencionaria Moraes em diálogos apreendidos. Antes disso, já havia sido publicada a existência de um suposto contrato envolvendo a esposa do ministro. Em ambos os momentos, o texto jornalístico se apoia fortemente em expressões condicionais: “teria dito”, “seria citado”, “segundo relatos”, “de acordo com fontes”.

O uso do condicional é legítimo no jornalismo investigativo. O problema surge quando ele deixa de ser recurso pontual e passa a ser estrutura permanente da narrativa. Quando a sucessão de hipóteses ocupa o espaço onde deveriam estar fatos consolidados, cria-se um ambiente de suspeição contínua — ainda que nenhuma irregularidade tenha sido formalmente reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal.

É preciso separar duas coisas: investigação em andamento e culpabilidade estabelecida. Até o momento, não há denúncia apresentada nem decisão judicial que aponte infração cometida por Moraes. O que existe são relatórios sob análise, interpretações sobre diálogos e relatos de bastidores.

Outro ponto que merece atenção é o timing das publicações. Sempre que há movimentação interna no Supremo — como a saída de Dias Toffoli da relatoria e a redistribuição do processo para André Mendonça — surge uma nova camada narrativa sugerindo mudança de cenário, aumento de risco ou tensão interna. São interpretações possíveis, mas que permanecem no campo das conjecturas.

A insistência em construir um ambiente de crise iminente, baseado em informações ainda não formalizadas nos autos, acaba deslocando o debate do plano jurídico para o plano político. A opinião pública passa a julgar antes que o processo produza seus próprios marcos.

Não se trata de defender autoridades nem de desqualificar a imprensa. O jornalismo investigativo é indispensável. Mas também é indispensável reconhecer quando a cobertura deixa de ser apenas informativa e passa a operar sob uma lógica de tensão permanente, na qual o personagem é reiteradamente colocado sob suspeita antes da consolidação de provas.

Há uma diferença relevante entre revelar fatos e alimentar expectativas. Quando relatórios ainda não concluídos se tornam manchete, quando reuniões internas são descritas com riqueza de detalhes sem que haja confirmação pública, e quando o “teria” se repete como fio condutor, o risco é transformar a apuração em narrativa política contínua.

A crítica, portanto, não é à investigação — que deve avançar com rigor e transparência —, mas à construção reiterada de um cenário de culpa antecipada. Em democracias constitucionais, a presunção de inocência não é detalhe técnico: é princípio estruturante.

E ele vale para todos — inclusive para ministros do Supremo.

Imagem: Chat GPT

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