Por mais que se tente maquiar os fatos com notas técnicas, discursos de ocasião e reuniões com pompa, há momentos em que a verdade precisa ser dita com todas as letras: o presidente da Câmara, Hugo Motta, traiu um acordo firmado entre o Congresso e o governo federal e agiu de forma mesquinha, movido por vaidade e por interesses que nada têm a ver com o povo brasileiro. O episódio da derrubada do decreto do IOF é mais do que uma disputa tributária — é um retrato da degradação política de uma parte significativa do Parlamento.
No início de junho, governo e Congresso chegaram a um acordo histórico. Sim, histórico, como o próprio Motta fez questão de destacar à imprensa, ladeado pelo presidente do Senado, David Alcolumbre, e pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Na ocasião, anunciou-se com estardalhaço que o decreto do IOF, que havia desagradado parte do Legislativo, seria substituído por uma medida provisória com alternativas menos impactantes, mas igualmente capazes de gerar a arrecadação necessária para manter as contas públicas em ordem.
Pois bem: acordo feito, entendimento firmado, declarações públicas dadas. E então, em menos de três semanas, o presidente da Câmara orquestrou em silêncio, nas sombras, um plano para sabotar o que ele mesmo havia assinado. Convidou um deputado bolsonarista para relatar a matéria, articulou em sigilo com caciques do Centrão e escondeu até de aliados sua intenção de pautar a votação antes do combinado com o governo. Por quê? Por birra. Por ego ferido. Por se sentir criticado — ainda que negue-se qualquer ataque pessoal — em um jantar ou por declarações públicas de ministros. E, como um menino mimado, decidiu usar a estrutura do Estado brasileiro para retaliar.
A desculpa? Estaria sendo “chantageado”, estaria sendo “ofendido”, estaria sofrendo com “milícias digitais”. Agora que sua estratégia saiu pela culatra e a população compreendeu o tamanho da sabotagem, Motta tenta se colocar como vítima de uma suposta máquina petista nas redes. Ora, quem desfez o acordo foi ele. Quem agiu pelas costas foi ele. Quem mentiu para o governo e para seus colegas foi ele. E quem abriu caminho para que mais uma vez os super-ricos escapem de contribuir com justiça para o país foi ele.
É inacreditável que uma decisão de tamanha importância para a economia e para a responsabilidade fiscal seja tomada não com base em critérios técnicos ou compromissos institucionais, mas por ciúmes políticos. Ao derrubar o decreto do IOF, o Congresso não apenas anulou uma medida que visava reorganizar a arrecadação federal — também jogou um balde de água fria em todas as tentativas do Executivo de equilibrar as contas e garantir recursos para áreas vitais como saúde, educação e programas sociais.
E a mídia, como sempre, adota dois pesos e duas medidas. Quando o povo vai às redes denunciar a sabotagem, chamam de “militância radical”. Quando a pauta é impulsionada pela direita, chamam de “clamor popular”. Quando Lula reage, dizem que está “afrontando o Congresso”. Mas quando o Congresso afronta os interesses nacionais, como fez Hugo Motta, o silêncio é ensurdecedor.
Não há reforma, ajuste ou avanço que resista a um Parlamento disposto a sabotar o país por capricho. E o pior: ainda querem que a população fique calada, que aceite a chantagem travestida de articulação política, que não reaja às manobras sujas de quem deveria estar legislando em nome do povo — e não em nome dos bancos, dos latifundiários ou dos operadores do mercado financeiro.
O governo precisa, sim, buscar acordos. Mas não pode se ajoelhar diante de um Congresso que rompe compromissos à primeira contrariedade. E o povo brasileiro precisa, sim, reagir, cobrar, denunciar. Porque está em jogo muito mais do que um imposto. Está em jogo o futuro de um país que tenta, com esforço e responsabilidade, reconstruir-se após anos de destruição orçamentária, negacionismo econômico e abandono social.
A sabotagem de Hugo Motta não será esquecida. E se ele teme as redes sociais, deveria temer mais o julgamento da História — e o das urnas. Porque quem trai acordos, sabota e despreza o povo, não merece estar no comando da Casa do Povo.
Por Damata Lucas – Imagem: Vinícius Loures


