Ano após ano, o Piauí revive o mesmo drama: a estiagem que castiga famílias, devasta plantações, dizima rebanhos e transforma a água — direito básico — em objeto de luta diária. O quadro de 2025 não é diferente. Segundo o Monitor de Secas, 22,2% do território piauiense já enfrenta seca extrema, a pior registrada desde 2018. Outros 62% convivem com seca grave e o restante sofre impactos em diferentes graus de intensidade.
Não se trata de surpresa. A estiagem é um fenômeno recorrente e previsível. O que causa indignação é a forma como o problema continua sendo tratado pelo poder público. Entre anúncios de programas emergenciais, promessas de investimentos e discursos em períodos eleitorais, o sertanejo segue abandonado à própria sorte, refém da chamada “indústria da seca” que, há décadas, lucra com a miséria da população.
O governo estadual e empresas públicas, como a Águas do Piauí, divulgam ações relevantes: perfuração e manutenção de poços, programas de recuperação de nascentes, ampliação de sistemas simplificados de abastecimento, além de um plano de limpeza e reativação de mais de 200 poços tubulares em 75 municípios. Medidas que certamente aliviam parte do sofrimento imediato, mas que continuam sendo paliativas diante da magnitude do problema.
A verdade é que o Piauí carece de políticas estruturantes e permanentes para convivência com o semiárido. Obras de captação e armazenamento de água, barragens planejadas, irrigação eficiente, tecnologias sociais de reaproveitamento da chuva — tudo isso já é conhecido, estudado e debatido. O que falta não é recurso ou conhecimento técnico, mas prioridade política.
Enquanto isso, comunidades inteiras dependem de carros-pipa, solução emergencial que se transformou em sinônimo de improviso e descaso. A cada seca, reaparece a mesma engrenagem: a fome, a sede, a precariedade; seguida da promessa de que, desta vez, será diferente. No entanto, quando as chuvas voltam, também desaparece o interesse das autoridades.
O drama da estiagem no Piauí não é apenas climático, é político. É reflexo de décadas de omissão, de escolhas que privilegiam o curto prazo e o palanque em detrimento da dignidade humana. E é justamente isso que precisa mudar.
O sertanejo não precisa de esmolas nem de discursos vazios. Precisa de água, de infraestrutura, de condições reais de enfrentar a seca sem ser condenado ao sofrimento cíclico que atravessa gerações. Precisa de representantes que não tratem a dor da estiagem como moeda eleitoral, mas como prioridade inadiável de Estado.
Enquanto isso não acontece, a seca seguirá sendo o retrato mais cruel da desigualdade no Piauí: uma tragédia anunciada que insiste em se repetir.
Por Damatta Lucas – Imagem: Gov. do PI


