A verdade por trás da dívida de Teresina: CPI expõe jogo político e paralisia da gestão Sílvio Mendes

A dívida da Prefeitura de Teresina existe, mas talvez não seja nem tão volumosa nem tão catastrófica quanto vem sendo propagado pelo atual prefeito Sílvio Mendes (União Brasil). Essa é uma das principais suspeitas levantadas por integrantes da própria Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Dívida, que começou a investigar as finanças do município e já encontrou indícios de exageros, distorções e uso político do chamado “rombo”.

Segundo o presidente da CPI, vereador Dudu (PT), parte expressiva dos valores apontados como dívida são, na verdade, empréstimos antigos, de longo prazo, obtidos por gestões anteriores — muitos deles comemorados como conquistas à época, como os R$ 202 milhões contratados junto ao Banco Mundial (BIRD) para o programa Lagoas do Norte. Hoje, esses recursos aparecem no pacote das dívidas anunciadas, inflando artificialmente a dimensão do suposto caos financeiro.

A comissão, portanto, deve se debruçar sobre a origem e aplicação de cada um desses valores — com atenção especial para dois empréstimos junto ao Banco do Brasil, de R$ 500 milhões e R$ 120 milhões, que serão auditados com lupa. O objetivo é separar o que é dívida legítima de longo prazo do que pode ter sido má gestão, corrupção ou pura encenação política.


Rombo fabricado ou estratégia política?

A CPI foi criada sob pressão da oposição e de setores do próprio Legislativo que estranharam a postura do prefeito. Sílvio Mendes, logo no início do mandato, passou a afirmar que a prefeitura está quebrada e que a dívida pode chegar a R$ 4 bilhões, caso a gestão perca ações judiciais em curso.

Acontece que nesse montante bilionário, estão incluídas dívidas de longo prazo (R$ 1,83 bilhão), parcelamentos previdenciários, empréstimos antigos e até compromissos com o INSS e o FGTS — valores esperados na contabilidade de qualquer ente público de médio a grande porte.

A interpretação que começa a ganhar força entre parlamentares é que houve uma tentativa de construir um cenário dramático para justificar o marasmo da gestão municipal. Em vez de assumir a cidade e buscar soluções, o prefeito estaria apostando no discurso do colapso como escudo político.

“Por que um gestor escolheria se expor ao declarar dívidas bilionárias se parte disso é dívida contratada por ele mesmo em gestões passadas? Por que assumir publicamente uma herança que não é só de um antecessor, mas de toda a estrutura municipal acumulada ao longo dos anos?”, questiona um dos membros da CPI.


A Teresina que agoniza: entre o discurso do caos e o abandono do básico

Enquanto o prefeito dramatiza a dívida, a cidade de Teresina parece entregue à própria sorte. Lixo acumulado, matagal tomando praças e margens de avenidas, buracos nas vias, e um visível abandono da zeladoria urbana básica. Profissionais de saúde denunciam a falta de medicamentos básicos nas unidades básicas de saúde, problema que persiste desde o final da gestão passada, e que o atual prefeito prometeu solucionar. Clínicas e hospitais conveniados tiveram que suspender exames básicos.

A gestão parece paralisada. Não há articulação com Brasília, não há busca por apoio da bancada federal do Piauí, não há plano emergencial para reativar os serviços essenciais. O prefeito se trancou em seu gabinete e preferiu virar porta-voz da crise ao invés de enfrentá-la.

Há quem veja nisso uma estratégia: exagerar os números para justificar a inoperância. A própria declaração de Sílvio Mendes, em entrevista, revela insegurança disse que era para aniciar efetivamente a administração com a marca do seu governo em julho, pulou para dezembro, e agora, diante da situação, não haveria um prazo definido.


O que diz a CPI e o que ela vai investigar

A CPI da Dívida pretende ir além dos discursos e analisar detalhadamente os números. Estão na mira:

🔍 Dívidas de longo prazo listadas pela atual gestão:

  • Banco do Brasil: R$ 500 milhões
  • Banco do Brasil: R$ 120 milhões
  • Banco de Brasília: R$ 100 milhões
  • Caixa Econômica Federal: R$ 275,3 milhões
  • Banco Mundial (BIRD): R$ 202,8 milhões
  • Banco Andino de Fomento: R$ 123,6 milhões
  • INSS: R$ 40,2 milhões
  • FGTS: R$ 8,6 milhões
  • IPMT (Previdência Municipal): R$ 501,9 milhões
    Total de longo prazo: R$ 1,83 bilhão

🧾 Demais passivos que serão auditados:

  • Restos a pagar: R$ 480,9 milhões
  • Consignações: R$ 280,3 milhões
  • Despesas de exercícios anteriores: R$ 124 milhões
  • Terceirizados: R$ 212,3 milhões
  • Coleta de lixo: R$ 22,5 milhões
  • Fornecedores diversos: R$ 110,7 milhões

Dívida acumulada sob investigação: R$ 3,067 bilhões

A CPI buscará:

  • Verificar a legalidade das operações financeiras;
  • Apurar superfaturamentos e obras não executadas;
  • Avaliar eventuais crimes de responsabilidade fiscal;
  • Encaminhar denúncias aos Tribunais de Contas e ao Ministério Público, se houver comprovação de irregularidades.

Uma cidade parada no tempo

Enquanto os números ainda precisam de interpretação, a cidade segue parada. Teresina perdeu protagonismo nacional, sofre com a ausência de investimentos e vive uma gestão desconectada das urgências da população. O prefeito, apesar das palavras poéticas sobre “ajustar as velas”, parece mais disposto a denunciar o passado do que construir o presente.

A CPI pode, sim, revelar dívidas mal explicadas, possíveis atos de corrupção ou heranças fiscais pesadas. Mas também poderá desmascarar um discurso oficial que esconde a verdade: a inércia da atual gestão, que optou pelo vitimismo em vez da ação.

Por Damata Lucas – Imagem: Instagram

Notícias recentes

Notícias em alta

Com notícias do Piauí, do Brasil e do Mundo!

©2024- Todos os direitos reservados. Clique Pi