À medida que se aproxima o dia 1º de agosto, data marcada para a entrada em vigor da taxação de 50% sobre as exportações brasileiras aos Estados Unidos, cresce a pressão diplomática entre os dois países — e começam a vir à tona interesses ocultos por trás da medida anunciada por Donald Trump. Um deles é a antiga cobiça americana pelas riquezas minerais brasileiras, em especial as chamadas terras raras, estratégicas para a transição energética global.
Em meio à polêmica gerada pela carta de Trump ao presidente Lula — exigindo a suspensão do julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) sob ameaça de tarifaço — o foco político se volta agora à disputa geoeconômica por minerais estratégicos, como lítio, nióbio e os 17 elementos químicos classificados como terras raras, essenciais para a produção de baterias, chips e tecnologia militar.
Na noite de quarta-feira (24), o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Raul Jungmann, revelou em entrevista ao Jornal Nacional que o encarregado de negócios dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, manifestou oficialmente o interesse americano em explorar essas riquezas do subsolo nacional.
“Os Estados Unidos reafirmaram interesse em minerais estratégicos como o lítio e o nióbio. Eles estão preocupados com o acesso a terras raras e deixaram isso claro. Mas ressaltei que a Constituição brasileira define que os recursos do subsolo pertencem à União. Essa pauta será conduzida pelo governo federal”, disse Jungmann.
Antes disso, o mesmo diplomata teria tratado do assunto diretamente com o vice-presidente Geraldo Alckmin, que lidera as negociações com Washington.
Minerais e hegemonia: o pano de fundo geopolítico
A ofensiva americana não é isolada. Em abril, Trump assinou um acordo com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, garantindo o acesso de empresas norte-americanas às jazidas de titânio, gás, petróleo e lítio do país. Na mesma semana, foi anunciada uma parceria com o Japão para um megainvestimento no Alasca, construindo um gasoduto de 1.300 km voltado ao mercado asiático.
O relatório de 2025 do U.S. Geological Survey (USGS) aponta Brasil e China como os maiores detentores de terras raras no mundo. A China lidera com 44 milhões de toneladas (49% das reservas globais), e o Brasil aparece em segundo lugar, com cerca de 21 milhões de toneladas, equivalente a 23% do total mundial.
Hoje, 70% das exportações minerais brasileiras têm como destino a China, incluindo ferro, bauxita, manganês e nióbio — o que aumenta a tensão estratégica dos EUA com o Brasil, especialmente no contexto de uma transição energética que ameaça a hegemonia do petróleo.
Lobby, militares e os bastidores do setor mineral
O nome de Raul Jungmann tem sido recorrente nesse jogo de bastidores. Ex-ministro da Defesa no governo Michel Temer e hoje presidente do Ibram, ele também está à frente do think tank Centro Soberania e Clima, junto ao general Sérgio Etchegoyen, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional.
Ambos comandam ainda o Instituto Brasileiro de Autorregulação do Setor de Infraestrutura (Ibric), criado em 2022, uma entidade privada que atua como ponte entre o setor mineral brasileiro e stakeholders internacionais, na prática exercendo lobby junto a investidores estrangeiros interessados na exploração das riquezas naturais do país.
O Ibram, por sua vez, tem como associados gigantes da mineração global como Vale, Alcoa e Samarco. Criado durante a Ditadura Militar, o instituto se consolidou como principal elo entre o empresariado do setor e governos — nacionais e estrangeiros.
Soberania mineral em xeque
A movimentação americana por terras raras revive no Brasil antigos fantasmas sobre a entrega de recursos estratégicos. Desde os tempos de Getúlio Vargas, com o emblemático “O petróleo é nosso”, até a criação do Fundo Social do Pré-Sal nos governos do PT — ameaçado pelo golpe de 2016 — a luta pela soberania sobre riquezas naturais tem sido central nas disputas políticas brasileiras.
Ao mesmo tempo, ex-integrantes do governo Temer e do núcleo militar do bolsonarismo, agora no setor privado, articulam a reconfiguração da política mineral brasileira sob interesses transnacionais. A escalada de pressões econômicas e diplomáticas dos EUA sobre o Brasil, no contexto do tarifaço de Trump, revela que a batalha não é apenas por impostos — mas pela posse do futuro energético do planeta.
Da Redação – Imagem: Chat GPT


