Diante do aumento expressivo de casos de intoxicação por metanol associados ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas no país, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, no último domingo (5), a importação do fomepizol, um medicamento capaz de inibir a metabolização dos compostos tóxicos desse álcool no organismo humano.
Além da liberação do antídoto, a Anvisa também aprovou a ampliação da produção nacional de etanol injetável de uso farmacêutico, outra substância que pode ser utilizada no tratamento das intoxicações. De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 12 mil ampolas de etanol farmacêutico e 2.500 unidades de fomepizol devem ser distribuídas às redes pública e privada de saúde até o fim desta semana.
O perigo invisível: como o metanol age no organismo
O metanol é um álcool simples amplamente utilizado como solvente, combustível e insumo industrial. No entanto, quando ingerido, inalado ou absorvido pela pele, torna-se altamente tóxico. Após a ingestão, ele é rapidamente absorvido pelo trato gastrointestinal e metabolizado no fígado pela enzima ADH (álcool desidrogenase), que o transforma em ácido fórmico, um composto tóxico que interfere no funcionamento celular e provoca hipóxia — ou seja, a falta de oxigênio nas células e tecidos.
Entre os efeitos mais graves estão as lesões visuais que podem evoluir para cegueira. Os sintomas geralmente aparecem de 12 a 24 horas após a ingestão, período necessário para a metabolização do metanol em seus subprodutos nocivos.
Casos em alta e alerta na saúde pública
O Brasil registrou 225 notificações de intoxicação por metanol após o consumo de bebidas adulteradas, segundo dados recentes do Ministério da Saúde. As ocorrências foram registradas em 13 estados, com destaque para São Paulo, que concentra cerca de 82,5% dos casos.
As bebidas são, na maioria das vezes, adulteradas após a produção, com a adição do composto tóxico para aumentar a quantidade comercializada. Outra forma de contaminação ocorre em destilações artesanais mal executadas: matérias-primas como frutas, sementes e cascas podem gerar metanol durante o processo, e a falta de separação adequada das frações iniciais da destilação permite que ele permaneça no produto final.
Como funcionam os antídotos
O metanol em si possui toxicidade limitada, mas o real perigo está em seus metabólitos — formaldeído e formiato — que causam danos principalmente ao sistema nervoso central e aos olhos.
O fomepizol atua inibindo a ADH, impedindo a conversão do metanol em substâncias tóxicas. Considerado altamente eficaz quando administrado precocemente, ele pode ser utilizado isoladamente ou em conjunto com hemodiálise. O tratamento geralmente é iniciado com uma dose administrada em cerca de 50 minutos, seguida de aplicações a cada 12 horas até a melhora do quadro clínico.
Outra alternativa terapêutica é o uso do etanol farmacêutico, que compete com o metanol pela mesma enzima metabólica, retardando a formação dos compostos tóxicos. Apesar de ter mais efeitos colaterais, o etanol é amplamente utilizado por ser mais acessível e de baixo custo. Ele pode ser administrado por via endovenosa, oral ou através de sonda.
Produção nacional e novas diretrizes
Uma resolução da Anvisa publicada em 3 de outubro autorizou e regulamentou a produção nacional de álcool etílico injetável destinado ao tratamento de intoxicação por metanol. Segundo a agência, os medicamentos deverão seguir rigorosos critérios de qualidade para uso humano e terão validade de até 120 dias.
Conclusão
A autorização emergencial da Anvisa representa um passo importante para conter os riscos à saúde pública provocados pelas intoxicações por metanol, cuja origem está muitas vezes ligada ao comércio ilegal de bebidas adulteradas. Especialistas alertam que a prevenção continua sendo a melhor estratégia: evitar produtos de procedência duvidosa e adquirir bebidas apenas de fabricantes e distribuidores confiáveis é fundamental para reduzir os riscos e proteger vidas.
Da Redação – Imagem: Rafa Neddermeyer


