As recentes sanções tarifárias impostas por Donald Trump ao Brasil — com sobretaxa de 50% sobre diversos produtos — estão se revelando um verdadeiro tiro no pé da diplomacia norte-americana. Quem afirma isso não é um analista qualquer, mas Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, em artigo publicado nesta semana.
Ao contrário do que Trump tenta alardear em seus discursos inflamados, sua guerra comercial não está sendo vencida. Na verdade, ele coleciona fracassos. Segundo Krugman, as medidas têm gerado pouco ou nenhum resultado prático nas mesas de negociação. “Trump é um negociador incompetente, facilmente enganado. Mas, mais fundamentalmente, ele simplesmente não tem força”, escreveu o economista.
Brasil: alvo político, não econômico
O caso brasileiro é emblemático. O Brasil não foi penalizado por práticas comerciais desleais — como Trump alega em relação a outros países —, mas por uma questão política e ideológica: o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentar reverter o resultado das eleições de 2022. Ou seja, os EUA, sob Trump, decidiram punir um país inteiro porque sua Justiça ousou responsabilizar um aliado político do ex-presidente norte-americano.
Mais grave ainda: a medida é claramente ilegal, inclusive sob as próprias leis comerciais dos EUA. Trump tenta contornar o sistema alegando falsos pretextos — mas, como Krugman lembra, nenhum dos motivos listados na legislação americana justifica a escalada tarifária contra o Brasil.
Ameaça à democracia — e aos próprios aliados
Na prática, as sanções contra o Brasil revelam duas verdades incômodas: Trump é inimigo declarado da democracia e da responsabilização judicial — e está disposto a usar o poder dos EUA para proteger aliados autoritários. Mas há um efeito colateral inevitável: ao atacar o Brasil, Trump também isola seus aliados internos, como Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo, que continuam conspirando contra os interesses do país e da própria soberania nacional.
Ao invés de fortalecer seus aliados, Trump os expõe. A retaliação ao Brasil tende a fortalecer a imagem internacional do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem sido visto como símbolo da resistência democrática na América Latina. As sanções também fragilizam Bolsonaro, que já enfrenta múltiplas investigações judiciais e tenta, sem sucesso, reabilitar sua imagem política.
Dependência dos EUA? Nem tanto
Krugman desmonta outro mito propagado por Trump e seus seguidores: o de que os EUA são indispensáveis para o Brasil. Segundo os dados mais recentes, 88% das exportações brasileiras têm como destino países que não são os Estados Unidos. A dependência é mínima — e, em certos setores, é até o inverso.
Um exemplo gritante é o suco de laranja: 90% do suco consumido nos EUA vem do Brasil. Ainda assim, esse produto foi isento das tarifas. O café, por outro lado — produto vital na rotina americana — foi taxado. A seletividade, segundo Krugman, é uma admissão clara de que quem paga o preço das tarifas são os consumidores norte-americanos, não os exportadores brasileiros.
Efeito bumerangue
Assim como ocorreu no Canadá, onde a pressão de Trump fortaleceu os liberais, no Brasil as ameaças do ex-presidente norte-americano acabam surtindo o efeito contrário: impulsionam a popularidade de Lula e expõem o autoritarismo de seus oponentes.
Trump pode achar que governa o mundo. Mas, como ironiza Krugman, nem “suco” ele tem — nem no sentido político, nem no sentido literal. Sua tentativa de usar o poder comercial dos EUA como instrumento de chantagem ideológica está fracassando, e arrastando junto seus cúmplices tropicais.
Da redação – Imagem: ChatGPT


