A incursão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, ocorrida na madrugada do último sábado (3), marca um dos episódios mais graves da história recente das relações internacionais no continente sul-americano. A retirada forçada do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores do território venezuelano, em meio a explosões em Caracas e à morte de integrantes das forças de segurança do país, representa uma violação aberta da soberania nacional e um ataque direto aos princípios que sustentam o direito internacional desde o pós-Segunda Guerra Mundial.
A ação, ordenada pelo governo de Donald Trump sob a alegação de que Maduro manteria vínculos com o narcotráfico internacional, provocou imediata reação de especialistas, governos e organismos multilaterais, que veem no episódio um precedente perigoso para toda a América Latina.
“Polícia do mundo” e o colapso das regras internacionais
Para o cientista político e professor de Relações Internacionais da Unifin, Bruno Lima Rocha, o ataque configura uma agressão imperialista sem qualquer respaldo jurídico. Segundo ele, não existe, no direito internacional, autorização para que os Estados Unidos atuem como uma espécie de “polícia global”.
“Mesmo que as acusações contra Nicolás Maduro fossem verdadeiras — o que não são —, não houve qualquer delegação da ONU ou de instituições multilaterais que autorizasse os EUA a capturar um chefe de Estado em território soberano”, afirma Rocha. Para o professor, a operação deve ser classificada como sequestro, e não como ação judicial legítima.
Rocha alerta ainda que o verdadeiro pano de fundo da ofensiva está ligado às gigantescas reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do mundo, além de outros recursos estratégicos. “O que está em jogo é o controle de riquezas naturais. Isso coloca todos os países da região sob risco potencial”, adverte.
América do Sul deixa de ser “zona de paz”
Na avaliação de Gustavo Menon, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Católica de Brasília (UCB), a ação norte-americana rompe um consenso histórico: o de que a América do Sul constitui uma região de paz, onde disputas devem ser resolvidas por meios diplomáticos.
“Essa intervenção armada direta em solo sul-americano quebra esse princípio e cria uma instabilidade sem precedentes”, afirma Menon. Ele destaca que, além de violar o direito internacional, a operação também fere normas internas dos próprios Estados Unidos, já que não houve autorização do Congresso norte-americano para a incursão militar nem mandado judicial para a captura de Maduro.
Brasil em posição delicada
Diante do novo cenário, o Brasil se vê em uma posição geopolítica sensível. Segundo Menon, a tendência do governo brasileiro é manter a tradição diplomática baseada na não intervenção, na defesa dos direitos humanos e na resolução pacífica de conflitos.
“O Itamaraty tem sinalizado preocupação com a legitimidade institucional na Venezuela e reconhecido Delcy Rodríguez como presidente interina, buscando uma saída diplomática para a crise”, explica.
Bruno Rocha observa que países com grandes reservas minerais — como o Brasil — precisam estar atentos. Caso o país optasse por ampliar o monopólio estatal sobre minerais críticos, estreitar laços com China e Rússia ou adotar moedas alternativas ao dólar, as tensões poderiam se intensificar. Ainda assim, ele avalia que a atual legislação brasileira reduz esse risco imediato.
Sistema ONU sob ataque
Para os dois especialistas, o episódio evidencia o enfraquecimento — ou mesmo o colapso — do sistema multilateral criado após a Segunda Guerra Mundial. “Estamos assistindo ao esvaziamento das instituições internacionais. O sistema ONU está sendo desmontado pelos próprios Estados Unidos”, afirma Rocha.
Menon vai na mesma linha: “Essa institucionalidade virou pó. O que se impõe agora é a lógica da força, não do direito”.
Reações internacionais e isolamento dos EUA
A gravidade da ofensiva levou a Colômbia, com apoio de China e Rússia, a solicitar uma reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU. O Brasil, embora não seja membro do colegiado, deve pedir direito à palavra para expressar a posição do presidente Lula, que condenou publicamente o ataque.
A China exigiu a libertação imediata de Maduro e defendeu diálogo e negociação. A Coreia do Norte classificou o episódio como “grave violação da soberania”. Na Europa, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, também condenou a ação.
Na América Latina, as reações foram divididas. Enquanto Gustavo Petro (Colômbia) e Gabriel Boric (Chile) expressaram profunda preocupação e defenderam uma solução pacífica, o presidente argentino Javier Milei celebrou a captura de Maduro como um “avanço da liberdade”, posição seguida por Paraguai, Equador e Panamá.
Um precedente perigoso
Atualmente detido em Nova York, Nicolás Maduro deve passar por audiência judicial sob acusações de narcoterrorismo. Independentemente do desfecho jurídico, o episódio já deixou marcas profundas.
“A mensagem é clara: a América Latina continua sendo tratada como quintal geopolítico”, afirma Menon. Para Rocha, o mais preocupante é a normalização da intervenção direta. “Se isso foi possível na Venezuela, pode acontecer em qualquer outro país da região.”
O ataque não apenas aprofunda a crise venezuelana, mas inaugura um período de elevada instabilidade continental, no qual a soberania nacional e o direito internacional passam a valer menos do que a lei do mais forte.
Por Damatta Lucas – Imagem Gerada por IA Chat GPT


