Até quando? O feminicídio como projeto de omissão no Brasil

Por Fabianna Cascavel para Site Clique PI

Há uma pergunta que ecoa como um grito sufocado nas estatísticas, nos boletins de ocorrência, nas páginas policiais e nos cemitérios: por que continuam matando as nossas mulheres?
E pior: por que seguimos tratando isso como se fosse inevitável?

Não é um mistério. Nunca foi. O feminicídio no Brasil não é fruto do acaso, nem de “crimes passionais”, nem de desvios individuais. Ele é resultado direto de uma engrenagem bem conhecida: machismo estrutural, Estado omisso, leis brandas, orçamento inexistente, cultura de silêncio e medo, dependência econômica e psicológica imposta às mulheres e narrativas religiosas e sociais que naturalizam a submissão feminina.

O Brasil está entre os países que mais matam mulheres no mundo. Isso não é um acidente histórico. É uma escolha política e social reiterada todos os dias.

A omissão que mata

Como alerta a especialista Samira Bueno, a omissão atinge todas as esferas de poder. Municípios e estados — justamente os entes que estão na linha de frente da rede de proteção — operam com estruturas precárias, equipes insuficientes e orçamento simbólico.

Não se protege a vida de meninas e mulheres sem dinheiro, sem gente e sem prioridade política.
Discursos inflamados em datas simbólicas não salvam ninguém. Faixas, campanhas e pronunciamentos não substituem delegacias especializadas funcionando 24 horas, casas-abrigo, equipes multidisciplinares, assistência social, saúde mental e resposta policial rápida e eficaz.

Na Câmara e no Senado, presenciamos cenas de agressão às mulheres, com parlamentares, especialmente da extrema direita deste país, ironizando a violência contra as mulheres, colocando-as “no seu devido lugar”, como vociferam alguns. Até mesmo parlamentares mulheres se omitindo e se calando diante das falas misóginas e criminosas de seus pares masculinos. Um absurdo! Não se preocupam, essa corja de parlamentares, em colocar mão na consciência e, finalmente, trabalhar em prol do povo brasileiro e das mulheres brasileiras.

E tem mais: a defesa da vida feminina virou uma bandeira bonita demais para discursos e barata demais no orçamento. Quando chega a hora da “caneta”, o compromisso desaparece. E o resultado aparece nos números — e nos corpos.

O medo como política informal

A mulher brasileira aprende cedo que denunciar pode custar caro. Aprende que o agressor muitas vezes volta para casa no mesmo dia. Aprende que a polícia pode minimizar, que o Judiciário demora, que a sociedade desconfia, que a família manda “aguentar mais um pouco”.

O medo não é individual. Ele é socialmente produzido.

E quando a dependência econômica, emocional e física se soma a esse medo, o Estado ausente se transforma em cúmplice silencioso.

Um pacto: suficiente?

O lançamento do Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio, envolvendo Executivo, Legislativo e Judiciário, é um passo importante. A proposta de atuação coordenada e permanente, somada a iniciativas como o site TodosPorTodas.br, aponta para um caminho correto.

Mas é preciso dizer com todas as letras: pacto sem orçamento é encenação.
Plano sem metas, prazos e fiscalização vira peça publicitária.
A vida das mulheres exige menos marketing institucional e mais execução concreta.

A imprensa mostra. A sociedade reage. E depois?

Casos como o de Tainara Souza Santos, brutalmente assassinada na Marginal Tietê, chocam, viralizam, indignam — e logo são substituídos por outro nome, outra mulher, outra história interrompida.

A repetição da barbárie não é sinal de normalidade. É sinal de falência.

O que precisa ser feito — agora

Não faltam respostas. Falta coragem coletiva para executá-las.

O poder público precisa:

  • Financiar de forma contínua e suficiente as políticas de proteção às mulheres
  • Fortalecer a rede de atendimento com profissionais capacitados
  • Garantir aplicação rigorosa da Lei Maria da Penha e punição efetiva aos agressores
  • Tratar feminicídio como prioridade absoluta de segurança pública

A educação precisa:

  • Enfrentar o machismo desde a infância
  • Trabalhar igualdade de gênero, respeito e resolução não violenta de conflitos
  • Desconstruir a ideia de posse sobre o corpo e a vida da mulher

A sociedade precisa:

  • Parar de relativizar a violência
  • Denunciar, acolher, proteger
  • Romper com o silêncio cúmplice

As mulheres precisam — e têm o direito — de:

  • Serem ouvidas sem julgamento
  • Ter autonomia financeira e acesso à informação
  • Saber que não estão sozinhas

E os homens precisam fazer a sua parte.
Não como “aliados ocasionais”, mas como responsáveis diretos pela transformação de uma cultura que os beneficia e mata mulheres. Questionar, intervir, educar outros homens, não rir, não compactuar, não silenciar.

Porque isso é intolerável

O feminicídio é subumano.
É uma mancha moral, política e civilizatória.
É a prova de que falhamos como Estado, como sociedade e como projeto de país.

Enquanto uma mulher for morta por ser mulher, não haverá discurso que nos absolva.
E a pergunta que ecoa continuará nos assombrando — até que a resposta deixe de ser retórica e passe a ser ação.

Chega!

Imagem Gerada por IA Chat GPT

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