Polícia Federal faz nova operação contra o banco
A segunda fase da Operação Compliance Zero não é um fato isolado. É a confirmação de que o Banco Master não operava apenas como uma instituição financeira problemática, mas como o núcleo de um esquema sofisticado de fraude, manipulação de mercado e captura política, sustentado por relações perigosamente próximas com setores do poder econômico e do Congresso Nacional.
Os crimes investigados — organização criminosa, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e manipulação de ativos — não surgem do nada. Eles exigem estrutura, proteção e acesso privilegiado. E é justamente aí que o caso deixa de ser apenas bancário para se tornar institucional.
Fraude em escala industrial
O que as investigações revelam é um modelo clássico de colapso anunciado:
carteiras de crédito sem lastro, ativos inflados artificialmente, circulação de papéis de valor duvidoso e uma engenharia financeira desenhada para sustentar uma aparência de solvência que não existia.
Não se trata de erro de gestão. Trata-se de engenharia deliberada, mantida enquanto o dinheiro circulava — e desmoronada quando o Banco Central interveio para evitar um risco sistêmico maior.
O bloqueio bilionário de bens e valores indica que a PF não está lidando com excessos pontuais, mas com um esquema de grande porte, com ramificações fora do banco.
A tentativa de socializar o prejuízo
Quando a insolvência se tornou inevitável, surgiu o movimento mais revelador:
a tentativa de empurrar os ativos podres para dentro de um banco público.
A operação envolvendo o BRB, sob o guarda-chuva político do governo do Distrito Federal, não foi apenas imprudente. Foi suspeita. Um banco estatal sendo mobilizado para absorver riscos privados de uma instituição já cercada por indícios graves é o tipo de operação que só prospera quando há pressão política e articulação de bastidores.
Não por acaso, o movimento encontrou resistência técnica e acabou barrado. Mas o simples fato de ter sido tentado expõe a lógica: privatiza-se o lucro, estatiza-se o prejuízo.
O Congresso como linha de defesa
Mais grave ainda foi a tentativa explícita de blindagem legislativa.
Parlamentares — especialmente no Senado — se mobilizaram para propor mudanças legais sob medida, com o claro objetivo de salvar o Banco Master das consequências de seus próprios atos.
Não era uma defesa do sistema financeiro. Era a defesa de um banco específico, no meio de uma investigação criminal em curso.
Quando o Parlamento passa a legislar para proteger investigados, o problema deixa de ser jurídico e passa a ser democrático.
Faria Lima: silêncio seletivo
Outro elemento chama atenção: o silêncio constrangedor de setores da Faria Lima. O mesmo mercado que costuma exigir austeridade, responsabilidade fiscal e “governança” demonstrou uma tolerância incomum diante de um banco que cresceu à margem dessas regras.
Esse silêncio não é neutro. Ele indica conivência, interesse cruzado ou, no mínimo, conveniência. Em um sistema financeiro saudável, um banco cercado por suspeitas dessa magnitude seria isolado. Aqui, foi tratado como “negócio”.
O padrão é o problema
O caso do Banco Master não é um desvio. Ele se encaixa em um padrão recorrente no Brasil:
- instituições privadas operam no limite da legalidade;
- crescem protegidas por relações políticas;
- quando o castelo desmorona, tentam acionar o Estado;
- e, no caminho, contam com parlamentares dispostos a dobrar a lei.
A Operação Compliance Zero escancarou esse modelo. Agora, resta saber se o país terá disposição para ir até o fim — não apenas contra executivos, mas contra o ecossistema de proteção que permite que esquemas assim prosperem.
Porque, no fim das contas, o maior escândalo não é a fraude em si.
É o número de portas que se abrem para quem tem dinheiro, influência e amigos no lugar certo.
Por Severino Severo para Clique PI- Imagem Gerada por IA Chat GPT


