Por Damata Lucas para o Site Clique PI
Um caso curioso – e ao mesmo tempo alarmante – foi compartilhado pela advogada Suzana Ferreira nas redes sociais: um casal de Goiânia travou uma disputa pela “guarda” de uma boneca reborn, aquelas hiper-realistas que imitam bebês recém-nascidos. A cliente, uma mulher adulta, procurou a advogada para formalizar judicialmente o direito de ficar com a boneca, afirmando que ela fazia parte da “família” que havia formado com o ex-companheiro.
O relato, que parece absurdo à primeira vista, revela uma realidade cada vez mais comum: a substituição de vínculos afetivos reais por laços simbólicos com objetos. Segundo Suzana, a mulher exigia inclusive que o ex-companheiro arcasse com parte dos custos do enxoval e da própria boneca, além de querer dividir a administração de um perfil no Instagram criado para a “bebê”, que já gera receita com monetizações e publicidade.
Apesar de ter recusado o caso sob o argumento de que “não é possível regulamentar a guarda de uma boneca”, a advogada alertou que episódios como esse revelam algo mais profundo: “A loucura da sociedade impacta diretamente na nossa profissão e vai ser uma enxurrada de problemas para o Judiciário que nós podemos barrar um pouco”, afirmou no vídeo.
Bebês reborn: moda estética, fuga emocional ou sintoma de algo maior?
As bonecas reborn, criadas artesanalmente para parecerem bebês reais, podem custar mais de R$ 3 mil e estão cada vez mais populares. A prática ganhou status de arte e até uma data comemorativa: no Rio de Janeiro, vereadores aprovaram o “Dia da Cegonha Reborn”, a ser celebrado em 4 de setembro, para homenagear artesãs que produzem as bonecas.
Mas por que tantos adultos estão tratando bonecas como filhos? Estaríamos diante de uma nova forma de afeto ou de uma epidemia silenciosa de distúrbios emocionais?
O que diz a psicologia
Para a psicóloga e doutora em saúde mental Ana Beatriz Barbosa Silva, casos como esse não devem ser tratados apenas como excentricidade. “Existe uma linha tênue entre a fantasia saudável e a alienação da realidade. Quando adultos desenvolvem vínculos tão profundos com objetos inanimados a ponto de judicializar relacionamentos com eles, é preciso investigar sofrimento psíquico mais profundo, como solidão extrema, luto não elaborado ou transtornos de personalidade”, afirma.
Já o psicólogo e especialista em comportamento humano Rossandro Klinjey vê na busca por bonecas reborn uma tentativa de preenchimento emocional: “Vivemos uma era de vazio relacional. As pessoas estão carentes, fragilizadas, muitas vezes traumatizadas. Criar vínculos com objetos pode ser uma maneira de lidar com a dor. Mas quando isso começa a substituir as relações humanas, é sinal de alerta.”
Para a terapeuta familiar Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar, o fenômeno pode também refletir um desejo de controle e perfeição: “Um bebê real chora, exige, frustra. O reborn é a idealização do afeto sem conflito. Não é difícil entender por que tanta gente busca isso em tempos tão difíceis.”
Modismo ou sintoma de uma pandemia emocional?
A popularização dos reborns em tempos de redes sociais também acende outra discussão: até que ponto isso é uma moda amplificada pela internet, ou um verdadeiro colapso da saúde emocional coletiva? Para muitos especialistas, estamos enfrentando uma espécie de “pandemia psíquica” marcada por ansiedade, depressão e necessidade constante de atenção e validação.
“Não é só sobre a boneca. É sobre o que ela simboliza: uma tentativa de ser visto, acolhido, amado. Em um mundo onde as pessoas estão exaustas e sozinhas, qualquer simulacro de afeto parece melhor do que nada”, diz Ana Beatriz.
Ainda que haja usos terapêuticos legítimos dos reborns — como no tratamento de luto perinatal ou em casos de Alzheimer —, o uso indiscriminado e emocionalmente simbiótico dessas bonecas por pessoas saudáveis chama atenção e pede cuidado.
Conclusão: o caso da “guarda” da boneca reborn pode parecer apenas uma anedota bizarra, mas é, na verdade, um espelho de um tempo em que a dor psíquica, a solidão e a fantasia ganham forma nas redes sociais — e, agora, nos tribunais.
Imagem: IA Chatgpt


