Bolsonaro exige direitos humanos: o último refúgio da hipocrisia

Jair Bolsonaro está condenado. Julgado, sentenciado e cumprindo mais de 27 anos de prisão, em uma das decisões mais graves e emblemáticas da história recente da democracia brasileira. Não se trata mais de narrativa, disputa política ou “versão dos fatos”. Trata-se de sentença judicial definitiva.

E é justamente por isso que os pedidos feitos agora por sua defesa soam não apenas contraditórios, mas escancaradamente irônicos.

O mesmo homem que construiu sua carreira política atacando direitos humanos, defendendo tortura, relativizando execuções e afirmando que preso “não merece regalia” agora exige tratamento diferenciado. Quer Smart TV, reclama do barulho do ar-condicionado, solicita assistência religiosa personalizada e pleiteia benefícios para redução de pena. Tudo embalado no discurso da “dignidade da pessoa humana”.

A dignidade, para Bolsonaro, sempre foi um conceito descartável — até se tornar conveniente.

Durante anos, ele e sua família tripudiaram da miséria do sistema prisional brasileiro. Zombaram de denúncias de superlotação, ignoraram relatórios internacionais, desqualificaram organismos de direitos humanos e trataram presos como sub-humanos. Agora, ironicamente, recorrem exatamente às garantias que ajudaram a demonizar.

O constrangimento aumenta quando a Comissão de Direitos Humanos do Senado é acionada em seu favor por uma aliada histórica: a senadora Damares Alves. A mesma que integrou um governo que atacou ONGs, desacreditou denúncias de violações e tratou a pauta humanitária como inimiga ideológica. Hoje, os direitos humanos deixam de ser “coisa de bandido” e passam a ser instrumento de conforto pessoal.

Nada disso seria problema se não fosse a hipocrisia estrutural.

Bolsonaro não está sendo submetido a condições desumanas. Pelo contrário: cumpre pena em instalações da Polícia Federal, com segurança, visitas controladas e acesso à TV aberta — realidade distante daquela vivida por milhares de presos comuns, amontoados em celas insalubres, sem ventilação, sem assistência médica e sem qualquer garantia mínima.

Se Smart TV, silêncio térmico e atendimento religioso sob demanda são agora considerados indispensáveis à dignidade, então é inevitável perguntar: por que essas mesmas condições nunca foram defendidas para o restante da população carcerária?

A resposta é simples e cruel: porque, até a prisão bater à própria porta, o sofrimento dos outros era politicamente rentável.

O choro público de familiares e aliados também não comove. Não há como esquecer que os mesmos personagens que hoje pedem empatia foram os que riram da dor alheia, desumanizaram presos e estimularam uma cultura de ódio institucionalizado.

Direitos humanos não são prêmio, não são favor e não são moeda política. São universais. Ou valem para todos — do anônimo ao ex-presidente — ou não passam de encenação oportunista.

Bolsonaro tem direitos, sim. Como qualquer preso. Nada além disso.
E não há ironia maior do que ver quem sempre desprezou a democracia agora exigir dela todo o seu amparo.

Só faltava essa.

Por Severino Severo – Imagem Gerada por IA Chat GPT

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