Por Damatta Lucas
Em mais um episódio que mistura subserviência, chantagem e o velho complexo de inferioridade que tanto assola setores da política nacional, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) resolveu inovar na humilhação. Diante da crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos – acentuada pelo anúncio unilateral de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros –, Flávio surgiu com uma solução que, no fundo, expõe tudo que há de mais nocivo na política brasileira: “basta colocar Jair Bolsonaro nas urnas”.
Sim, essa é a proposta. Em vez de defender os interesses nacionais com soberania e diplomacia, o senador sugere que o Brasil se curve mais uma vez. Que aceite sem questionar uma espécie de tutela internacional imposta por Donald Trump. Que se submeta à humilhação de condicionar sua política interna — inclusive decisões judiciais — ao humor do ex-presidente dos Estados Unidos.
O que Flávio defende, na prática, é que o Judiciário brasileiro se ajoelhe diante de Trump, revogue decisões soberanas do Tribunal Superior Eleitoral, e coloque o nome do pai nas urnas como moeda de troca para o Brasil voltar a ser “aceito” pela “maior democracia do mundo”. Uma fala que chega a ser grotesca — mas que também escancara a miséria política e moral de quem a profere.
Trata-se de mais um capítulo do projeto familiar de poder que não hesita em sabotar a democracia e as instituições brasileiras para tentar se manter relevante. Jair Bolsonaro está inelegível até 2030 por decisão da Justiça Eleitoral — não por vingança, mas por abuso de poder político, uso indevido dos meios de comunicação e manipulação das estruturas do Estado em benefício próprio. Negar isso é negar os fatos.
A chantagem de Trump, formalizada em carta enviada diretamente ao presidente Lula, é tão inaceitável quanto a resposta de vassalagem da família Bolsonaro. E não se trata apenas de uma submissão do bolsonarismo. Parte da esquerda brasileira também já demonstrou essa tendência ao servilismo internacional, quando se cala diante de pressões externas ou finge não ver o desrespeito à soberania nacional, desde que isso sirva a seus próprios interesses.
No fundo, o que une essas correntes tão opostas ideologicamente é um mesmo vício: o Brasil, para eles, nunca é suficiente. Nunca é digno. Nunca é soberano o bastante. Sempre precisa de um aval de fora, seja de Washington, Paris ou Pequim.
Não, senador Flávio Bolsonaro. A solução para o Brasil não é repetir 2018. Não é reabilitar quem atacou a democracia, estimulou o caos institucional e debochou da ciência durante a maior crise sanitária do século. A solução está justamente no oposto: em fortalecer a soberania nacional, respeitar as instituições e não tratar o país como um quintal de interesses externos — nem dos Estados Unidos, nem da China, nem de ninguém.
O Brasil precisa de estadistas, não de mascotes de Trump. E muito menos de herdeiros ressentidos de um projeto político fracassado.
Imagem: Chat GPT


