É curioso — para não dizer revelador — observar como parte significativa da grande imprensa brasileira insiste em enxergar o país a partir das lentes de editoriais estrangeiros, principalmente os alinhados à direita global. Agora, com a reaproximação diplomática entre Brasil e Estados Unidos, concretizada por Lula e Donald Trump, esse comportamento se evidencia mais uma vez.
Após uma conversa direta entre os dois líderes, um gesto político que muitos julgavam improvável, resultou na suspensão do tarifaço de 40% impostos pelos norte-americanos sobre produtos brasileiros como café, carne, cacau, manga e açaí. Uma vitória comercial expressiva, que gera impacto imediato nas exportações e reforça o peso do Brasil como interlocutor internacional.
Mas ao invés de destacar o triunfo diplomático, a narrativa predominante entre veículos nacionais prefere reduzir o feito, atribuindo-o exclusivamente à queda da popularidade de Trump e ao aumento da inflação nos EUA. Como se o Brasil apenas tivesse sido beneficiado por circunstâncias externas, e não por capacidade de articulação política de seu governo.
Sim, é fato que o preço dos alimentos pressiona a aprovação de Trump. Entretanto, esquece-se — ou prefere se esquecer — que Trump sempre se mostrou indiferente a oscilações de popularidade, apostando em seu estilo combativo e autoconfiança. O que o levou a recuar neste momento foi uma convergência estratégica. E nessa equação, Lula demonstrou ser um negociador habilidoso e experiente, alguém capaz de dialogar com perfis tão distintos quanto Biden, Xi Jinping e Donald Trump.
Ao minimizar essa conquista, parte da imprensa brasileira mais uma vez expõe seu histórico complexo de vira-lata — incapaz de reconhecer a força quando ela parte de um governo do próprio país.
Enquanto jornais estrangeiros destacam a eficácia do movimento diplomático brasileiro — citando inclusive a “química” entre os dois mandatários, como noticiou a imprensa portuguesa — aqui prefere-se sugerir que Lula teria sido beneficiado por uma espécie de “sorte conjuntural”.
Esquecem-se de que:
- O Brasil não cedeu nada aos EUA nesse acordo;
- Volta do tarifaço seria extremamente prejudicial aos produtores americanos em meio ao Dia de Ação de Graças;
- A estratégia de Lula não foi de submissão, mas de iniciativa política.
Quando Trump afirma ter sentido “conexão” com Lula durante a cúpula da ONU, não está apenas fazendo cortesia. Está reconhecendo que o Brasil voltou a ter voz, deixou de ser espectador e voltou a ser protagonista geopolítico.
Lula, com sua trajetória, sempre entendeu que diplomacia não se faz com alinhamentos automáticos, mas com equilíbrio de interesses, autonomia e estratégia. E é exatamente esse estilo de condução internacional que incomoda aqueles que insistem em enxergar o Brasil como país periférico, dependente e sem capacidade de reação.
O tarifaço foi suspenso, embora em parte, mas negociações continuam. O Brasil deixou de estar entre os mais punidos e passou a integrar a lista dos menos taxados. Isso é fato. E é fruto de ação.
Que se registre: o que a grande imprensa chama de “movimento de Trump”, o cenário internacional reconhece como resultado direto da articulação política de Lula e da maturidade diplomática do Brasil.
Quem insiste em diminuir essa conquista não critica o governo — critica a própria ideia de que o Brasil pode ser grande.
Respeito
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, disse, na noite desta quinta-feira (20), que ficou feliz com a retirada, pelo governo dos Estados Unidos, das taxas impostas sobre alguns produtos brasileiros. Segundo o presidente, o Brasil está sabendo lidar com a pressão das tarifas e obteve respeito dos EUA.

“Quando o presidente dos EUA tomou a decisão de fazer a supertaxação, todo mundo entrou em crise e ficou nervoso. E eu não costumo tomar decisão com 39 graus de febre. Eu espero a febre baixar. Se você tomar decisão com febre, você vai cometer um erro”, disse ao discursar na abertura do Salão Internacional do Automóvel, na capital paulista.
“E hoje estou feliz porque o presidente Trump começou a reduzir as taxações. E essas coisas vão acontecer na medida em que a gente consiga galgar respeito das pessoas, ninguém respeita quem não se respeita”, acrescentou.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, nesta quinta-feira (20), a retirada da tarifa de importação de 40% sobre determinados produtos brasileiros. Constam na lista divulgada pela Casa Branca produtos como café, chá, frutas tropicais e sucos de frutas, cacau e especiarias, banana, laranja, tomate e carne bovina.
Na ordem executiva publicada pela Presidência dos EUA, Trump diz que a decisão foi tomada após conversa por telefone com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “durante a qual concordamos em iniciar negociações para abordar as questões identificadas no Decreto Executivo 14.323”. De acordo com a publicação, essas negociações ainda estão em andamento.
Em pronunciamento nas redes sociais, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Fernando Haddad, Lula afirmou que a derrubada da taxa de 40% imposta pelo governo norte-americano a vários produtos agrícolas brasileiros é uma vitória do diálogo, da diplomacia e do bom senso.
“O diálogo franco que mantive com o presidente Trump e a atuação de nossas equipes de negociação, formada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e os ministros Fernando Haddad e Mauro Vieira pelo lado brasileiro, possibilitaram avanços importantes”, destacou o presidente.
“Esse foi um passo na direção certa, mas precisamos avançar ainda mais. Seguiremos nesse diálogo com o presidente Trump tendo como norte nossa soberania e o interesse dos trabalhadores, da agricultura e da indústria brasileira.”
Talvez seja hora de, ao invés de seguir a pauta de Washington, olhar para o próprio Planalto e reconhecer: o país voltou a negociar de igual para igual. E isso incomoda muita gente.
Por Antônio Luiz/Agência Brasil – Imagem Gerada por IA ChatGPT


