Em meio à escalada de tensões comerciais provocada pelos Estados Unidos, o Brasil liderou uma ofensiva diplomática na Organização Mundial do Comércio (OMC) denunciando o uso de tarifas como instrumento de pressão política. O alerta partiu do embaixador brasileiro Philip Fox-Drummond Gough durante encontro em Genebra, nos dias 22 e 23 de julho, e ganhou apoio de mais de 40 países, incluindo China, Índia, Rússia, Canadá e União Europeia.
“Estamos testemunhando um ataque sem precedentes ao Sistema Multilateral de Comércio e à credibilidade da OMC”, declarou Gough, referindo-se às novas tarifas unilaterais anunciadas pelo presidente norte-americano Donald Trump. A medida, que entra em vigor em 1º de agosto, atinge diretamente produtos brasileiros exportados para os EUA.
Trump justificou o tarifaço alegando desvantagens na relação comercial com o Brasil e associou a decisão às investigações conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. A retaliação, considerada arbitrária por diplomatas, escancarou a tentativa dos EUA de interferir em questões internas de outro país — o que o Brasil classificou como uma “violação flagrante” das regras internacionais.
“Estamos vendo tarifas sendo usadas como armas políticas. Isso mina a previsibilidade do comércio global e nos empurra para um cenário de estagnação econômica e inflação alta”, alertou o diplomata brasileiro.
Crise da OMC e apelo por reforma
A delegação brasileira defendeu a urgente reestruturação da OMC e reafirmou o compromisso com o multilateralismo. “Continuaremos priorizando soluções negociadas e o bom diálogo diplomático. Mas, se necessário, recorreremos a todos os meios legais, inclusive o sistema de solução de controvérsias da OMC”, afirmou Gough.
Segundo ele, a paralisia do sistema atual tem alimentado um ciclo vicioso de medidas e contramedidas unilaterais, aprofundando a desigualdade global. “Se não reagirmos agora, pagaremos o preço com a pobreza, a instabilidade e a guerra comercial.”
Aliança entre economias em desenvolvimento
O Brasil também conclamou as economias emergentes a se unirem em defesa de um comércio baseado em regras, alertando que países em desenvolvimento são os mais vulneráveis às práticas de coerção econômica.
“Negociações pautadas por jogos de poder nos conduzem por um caminho perigoso. Precisamos reconstruir a OMC como um fórum legítimo, baseado no respeito mútuo, e não na intimidação.”
Resposta dos EUA
A delegação norte-americana reagiu com críticas, acusando outros países de também violarem as regras da OMC. Os EUA defenderam sua preferência por acordos bilaterais e alegaram estar “restabelecendo o equilíbrio” nas relações comerciais internacionais.
Mesmo diante da resistência de Washington, a mobilização liderada pelo Brasil evidenciou que a comunidade internacional está disposta a reagir ao uso abusivo do poder econômico como arma política. A batalha agora se desloca para o campo diplomático e jurídico, com o risco crescente de uma guerra comercial aberta.
Da Redação – Foto: Reprodução


