Por Damatta Lucas
Enquanto países como China, Índia, Indonésia e até a Argentina conseguem avançar em negociações tarifárias com os Estados Unidos, o Brasil segue estagnado — não por incompetência técnica ou falta de diplomacia, mas por um fator que raramente é dito com todas as letras: sabotagem interna. Analistas ditos “independentes” — mas com claras preferências ideológicas — tentam colar no Brasil o rótulo de “inábil”, como se houvesse neutralidade possível diante de um governo norte-americano alinhado com figuras políticas que trabalham contra os interesses nacionais.
Nas últimas semanas, a Indonésia conseguiu reduzir tarifas americanas de 32% para 19%. O Vietnã aceitou 20%; Filipinas, 21%; Malásia, 25%; Tailândia e Camboja, mais de 36%. A própria China, arquirrival dos EUA, fechou um acordo preliminar: os norte-americanos baixaram sua tarifa de 145% para 30%, enquanto os chineses reduziram de 125% para 10%. Até a Argentina já negocia um acordo de tarifa zero para até 80% dos produtos exportados. O Brasil? Nenhum avanço. Nenhuma concessão.
Mas essa estagnação tem nome: Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro. A família, aliada ideológica do trumpismo, não apenas se recusa a atuar em prol de interesses brasileiros, como age ativamente em favor de pautas que fragilizam a soberania nacional. O alinhamento cego com Donald Trump — mesmo quando o magnata atua com sanções diretas contra o Brasil — já seria alarmante por si só. Mas o que se vê é ainda pior: o uso de mandatos parlamentares e influência institucional para justificar os ataques externos à economia e ao sistema judiciário brasileiro, que julga Jair Bolsonaro por suposta tentativa de golpe e por desacreditar as eleições livres do seu país. E isso assanhou a sanha bolsonarista, que procura influenciar Trump em sanções contra o Brasil.
Eduardo Bolsonaro, deputado federal, vem defendendo abertamente o trumpismo e atacando instituições brasileiras, especialmente o Supremo Tribunal Federal, numa escalada que ultrapassa o campo do debate político e entra no território da deslealdade. Como negociar com um país cujo presidente se sente apoiado e incentivado por parlamentares brasileiros a impor sanções contra o próprio Brasil?
Mais alarmante ainda é o comportamento de certos analistas políticos que tentam, com disfarce de tecnicismo, culpar o Brasil pelas tarifas abusivas impostas por Trump. Ignoram — ou fingem ignorar — que o Brasil já participou de inúmeras rodadas de negociação. Tentativas frustradas não por má vontade técnica, mas por um contexto de boicote e hostilidade explícita, fomentado pelos próprios bolsonaristas.
Esses analistas insistem em dizer que o Brasil é o único entre os Brics que não consegue avançar. Mas por que omitem que é também o único com uma base política interna — numerosa, ruidosa e desleal — que torce contra o próprio país e aposta na punição econômica como ferramenta de desestabilização política?
A verdade precisa ser dita: o Brasil não negocia com os Estados Unidos porque os Estados Unidos, sob Trump, não negociam com o Brasil de Lula. A Casa Branca de extrema-direita atua como parceira informal do bolsonarismo no enfraquecimento da economia brasileira. E os porta-vozes dessa sabotagem, nos jornais e nas redes, ainda tentam pintar esse cenário como falha do governo atual.
Não se trata de uma disputa comercial qualquer. Trata-se de uma guerra ideológica travestida de economia. E nela, os traidores estão ao lado de fora, mas também — e principalmente — do lado de dentro.
Imagem: ChatGPT


