Câmara transforma traição ao povo em privilégio

O Brasil assiste, estarrecido, a mais um capítulo do teatro da impunidade encenado dentro da Câmara dos Deputados. Um Parlamento que já não serve de exemplo para nenhuma nação democrática do planeta, que legisla em causa própria e se comporta como seita disposta a proteger os seus — até mesmo os que atentam contra a pátria e contra a democracia.

Na calada da madrugada de quarta-feira, 17, aprovou-se a PEC da Blindagem, um escudo para parlamentares envolvidos até em crimes hediondos. Agora, num novo ato de afronta à nação, o Partido Liberal (PL) decidiu blindar Eduardo Bolsonaro, deputado que abandonou o Brasil para viver nos Estados Unidos, onde passou a conspirar contra seu próprio país, pedindo sanções ao governo Trump em retaliação à condenação do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a mais de 27 anos de prisão por crimes contra a democracia e tentativa de golpe de Estado.

A manobra é vergonhosa: Caroline de Toni renuncia à liderança da minoria para entregar o posto ao filho 03 de Jair Bolsonaro, garantindo-lhe a imunidade contra a cassação por faltas sucessivas. Eduardo não pisa no plenário há meses, mas seguirá recebendo salário, verbas de gabinete e, agora, prerrogativas de liderança. Tudo pago com o dinheiro do povo brasileiro.

Trata-se de uma operação política urdida para salvar o mandato de um deputado que não trabalha para o Brasil, mas contra ele. Eduardo Bolsonaro não apenas deixou de cumprir suas funções, como se tornou o principal articulador das sanções norte-americanas que já atingem a economia nacional. Pior: ao ser alçado à liderança da minoria, volta a ameaçar o país, dizendo que, se não houver anistia ao pai, “o Brasil vai parar”.

O que está em jogo não é apenas um mandato, mas a dignidade das instituições brasileiras. A Câmara, sob anuência do presidente Hugo Motta, retorceu normas internas para acomodar o interesse de uma família condenada pela Justiça. Invocaram um precedente de 2015 — criado por Eduardo Cunha — como justificativa, mas que em nada autoriza um parlamentar a legislar do exterior. É uma gambiarra jurídica que fere o espírito da democracia representativa.

E tudo isso tem custo. Enquanto conspira fora do país, Eduardo Bolsonaro custa até R$ 200 mil por mês aos cofres públicos, entre salários e verbas. Em apenas cinco meses de 2025, já são mais de R$ 520 mil torrados. Ao final do ano, a fatura pode chegar a R$ 2 milhões — dinheiro arrancado do povo brasileiro para sustentar um deputado ausente e conspirador.

Esse escárnio não pode ser naturalizado. O Brasil não pode aceitar que o Parlamento se transforme em guarida de quem age contra a nação. O PL, seus líderes e a própria Mesa Diretora da Câmara carregam agora a responsabilidade de ter institucionalizado a blindagem de um traidor.

Ou as instituições reagem, ou a democracia brasileira ficará marcada por um precedente de vergonha: a legitimação de um mandato-fantasma exercido de fora do país, pago com dinheiro público e usado para ameaçar o próprio Estado de Direito e o Brasil.

O Congresso, que deveria ser guardião da democracia, escolheu mais uma vez ser cúmplice de sua corrosão.

Por Damatta Lucaas – Imagem: ChatGPT

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