A escalada do conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos voltou a provocar turbulência nos mercados internacionais de energia. Nesta segunda-feira (09/03), o preço do barril de petróleo chegou a se aproximar de 120 dólares após novos ataques israelenses contra infraestruturas energéticas iranianas durante o fim de semana e a indicação de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do Irã.
As tensões, que já se estendem por cerca de dez dias, elevaram o nível de incerteza no setor energético. Em meio às preocupações com possíveis interrupções no fornecimento, o petróleo Brent chegou a ser negociado a 119,50 dólares por barril. Mais tarde, os preços recuaram para cerca de 93 dólares, mas os riscos associados ao conflito permanecem elevados.
O principal temor do mercado está relacionado à infraestrutura energética do Oriente Médio, região responsável por uma parcela significativa da produção global de petróleo. Além dos danos provocados por ataques recentes, a situação se agravou com o bloqueio do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta para o transporte de petróleo.
Estreito de Ormuz no centro da crise
Os principais produtores do Golfo Pérsico — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait e Bahrein — foram diretamente impactados pelo agravamento do conflito regional.
Nos últimos dias, o Irã intensificou ataques contra diferentes alvos na região, incluindo instalações energéticas, aeroportos, hotéis e áreas residenciais, além de bases militares americanas. As ofensivas foram acompanhadas por acusações de “traição” contra países vizinhos e ameaças de possíveis retaliações militares.
Ao mesmo tempo, Teerã decidiu bloquear o Estreito de Ormuz, estreita passagem marítima que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico. Segundo dados da empresa de análise de transporte marítimo Kpler, a medida praticamente interrompeu o tráfego comercial na região.
A importância estratégica dessa rota é enorme: cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo passa diariamente por ali. Por isso, o fechamento do estreito é considerado pelos analistas o pior cenário possível para o mercado global de energia.
Limitações de armazenamento pressionam produtores
Com os navios petroleiros e embarcações de gás natural impedidos de seguir viagem, produtores da região aguardam a reabertura da passagem marítima para retomar o fluxo normal de exportações.
Alguns países ainda conseguem escoar parte da produção por rotas alternativas. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, utilizam oleodutos que permitem transportar petróleo até o Mar Vermelho ou o Golfo de Omã. Mesmo assim, essa capacidade alternativa é limitada.
Enquanto isso, o armazenamento disponível começa a se tornar um problema. Sem conseguir exportar o petróleo, os reservatórios vão sendo rapidamente preenchidos.
Segundo estimativas do banco JP Morgan, os países do Golfo possuem capacidade conjunta para armazenar cerca de 343 milhões de barris de petróleo. Essa reserva serviria apenas como uma solução temporária para evitar a interrupção imediata da produção.
A dimensão do desafio fica mais clara quando se considera o volume normalmente transportado pelo Estreito de Ormuz: cerca de 15 milhões de barris de petróleo bruto por dia, além de mais de 4 milhões de barris de derivados como gasolina, diesel e querosene de aviação.
Com base nesses números, o JP Morgan calcula que, quando o conflito começou em 28 de fevereiro, os produtores da região tinham aproximadamente 22 dias de capacidade de armazenamento antes de enfrentar limitações mais graves.
Primeiros sinais de cortes na produção
Alguns países já começaram a sentir os efeitos diretos da crise.
O Iraque, que possuía apenas cerca de seis dias de capacidade de armazenamento, provavelmente já atingiu seu limite. Como consequência, Bagdá reduziu sua produção em cerca de 1,5 milhão de barris por dia na semana passada.
A consultoria Rystad Energy alertou que os campos petrolíferos restantes do país podem sofrer uma interrupção praticamente inevitável caso a situação não seja normalizada rapidamente.
A Arábia Saudita, por outro lado, tinha uma margem maior de armazenamento — cerca de 66 dias no início do conflito, segundo o JP Morgan. Esse cálculo considera a possibilidade de redirecionar parte das exportações por outras rotas.
Mesmo assim, a Rystad Energy estima que o país poderia ter apenas entre sete e nove dias antes de ser obrigado a reduzir significativamente sua produção.
Para contornar o problema, a Saudi Aramco vem desviando o máximo possível de petróleo para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Já os Emirados Árabes passaram a enviar parte de suas exportações pelo porto de Fujairah — que também foi alvo de ataques iranianos.
Apesar dessas alternativas, as rotas disponíveis conseguem transportar apenas cerca de um terço do volume que normalmente atravessa o Estreito de Ormuz.
Dados analisados pela empresa Kayrros e citados pelo Financial Times indicam que a produção saudita já apresenta sinais de desaceleração. Informações semelhantes foram confirmadas por reportagens da Bloomberg e da Reuters.
Riscos para o mercado global de energia
Uma paralisação ampla da produção de petróleo do Golfo Pérsico teria impacto imediato nos preços internacionais.
A região responde por aproximadamente um terço de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo. Qualquer interrupção significativa nesse fluxo poderia provocar um choque de oferta no mercado global.
Na sexta-feira (06/03), o ministro da Energia do Catar afirmou ao Financial Times que o preço do petróleo poderia alcançar 150 dólares por barril caso o conflito se prolongue e obrigue os produtores a interromper suas operações.
Analistas do grupo financeiro ING também alertaram que, quanto mais tempo durar o bloqueio do Estreito de Ormuz, maior será o volume de produção que terá de ser suspenso simplesmente por falta de capacidade para exportação.
A Agência Internacional de Energia (AIE) também destacou o risco de mudança no equilíbrio do mercado. Segundo a instituição, interrupções prolongadas no fornecimento poderiam transformar o atual cenário de excedente global de petróleo em um quadro de déficit.
Diante da possibilidade de forte aumento nos preços da energia, ministros das Finanças do G7 marcaram uma reunião para discutir uma eventual liberação coordenada de petróleo de reservas estratégicas.
Infraestrutura energética também sofreu ataques
Além das tensões comerciais e logísticas, diversas instalações energéticas da região foram atingidas nos últimos dias.
Em 2 de março, drones iranianos atacaram a refinaria de Ras Tanura, operada pela Saudi Aramco e considerada uma das maiores do mundo. A instalação possui capacidade de refino de cerca de 550 mil barris por dia e funciona também como importante terminal de exportação.
No mesmo dia, um ataque atingiu Ras Laffan, no Catar, a maior instalação de exportação de gás natural liquefeito (GNL) do planeta.
Após o incidente, a QatarEnergy suspendeu as operações e declarou “força maior” em seus contratos — mecanismo que permite interromper entregas em situações excepcionais, como guerras ou desastres naturais.
Embora o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, tenha pedido desculpas aos países vizinhos e prometido reduzir os ataques, ações esporádicas continuaram.
Na segunda-feira, um ataque com drones atingiu a ilha de Sitra, no Bahrein, afetando o complexo de refino de Al Ma’ameer e provocando novas interrupções nos embarques de petróleo.
Ao mesmo tempo, o Ministério da Defesa da Arábia Saudita informou que sistemas de defesa aérea interceptaram quatro drones que tinham como alvo o campo petrolífero de Shaybah, no sudeste do país.
Da Redação Clique PI – Imagem: Chat GPT


