Congresso inimigo do povo: quando a chantagem vira método e a imoralidade vira regra

Por Severino Severo para Clique PI

Por que tantos parlamentares se sentem ofendidos quando o povo vai às ruas ou às redes sociais gritar “Congresso inimigo do povo”? Talvez porque, no fundo, saibam que o grito não nasce do ódio gratuito, mas da constatação amarga de uma realidade: grande parte do Parlamento brasileiro tem legislado prioritariamente em causa própria.

A atual legislatura transformou a chantagem política em método e a exceção em regra. Projetos que interessam diretamente à população — saúde, educação, combate à fome, políticas sociais — só avançam quando vêm acompanhados de exigências ao Executivo. É o toma-lá-dá-cá institucionalizado. Governa-se menos por compromisso com o povo e mais por acordos que mantêm privilégios intocados.

Direita, extrema direita, Centrão e, de forma igualmente vergonhosa, alguns nomes da esquerda se unem quando o assunto é preservar vantagens. As diferenças ideológicas desaparecem diante do interesse comum: proteger benefícios, ampliar salários, criar penduricalhos e driblar a Constituição com engenharias jurídicas que só existem para quem legisla.

O episódio mais recente escancara esse abismo moral. Em pleno início de 2026, ano eleitoral, deputados e senadores aprovaram, em regime de urgência e votação simbólica — sem transparência, sem debate público e sem registro nominal de votos — projetos que elevam a remuneração de servidores do Legislativo para patamares que ultrapassam o teto constitucional. Tudo isso por meio de mecanismos artificiais, como indenizações e licenças compensatórias convertidas em dinheiro, isentas de imposto e fora do limite legal.

Na prática, cria-se um salário que pode chegar a cerca de R$ 61 mil mensais, enquanto milhões de brasileiros sobrevivem com renda insuficiente, enfrentam filas no SUS, escolas precarizadas e um custo de vida cada vez mais sufocante. O discurso oficial tenta minimizar o impacto, fala em percentuais pequenos do orçamento, mas ignora o essencial: o problema não é só fiscal, é moral.

Mais grave ainda é o método. Projetos dessa magnitude foram aprovados sem passar pelas comissões, sem escrutínio técnico aprofundado e por acordo entre líderes partidários. A votação simbólica impede que o eleitor saiba quem votou a favor e quem teve coragem de se posicionar contra. É o Parlamento agindo no escuro — e contra quem deveria representar.

Diante disso, o Executivo se vê refém. Com minoria no Congresso, o governo é pressionado a sancionar medidas que ferem o senso ético mais básico, sob a ameaça de retaliação política. Se vetar, corre o risco de ver pautas sociais travadas, projetos estruturantes engavetados e o país paralisado por interesses corporativos. A chantagem não é retórica: é prática cotidiana.

Isso explica, em parte, por que tantos parlamentares se incomodam com a reação popular. O problema não é o tom do protesto, mas o espelho que ele levanta. Quando o povo grita, revela aquilo que muitos tentam esconder sob discursos técnicos e notas oficiais: a desconexão completa entre o Congresso e a realidade da maioria dos brasileiros.

Por isso, a eleição não pode ser tratada como um ato simbólico restrito ao voto para presidente. Sem uma base parlamentar comprometida com um projeto de país, nenhum governo consegue avançar de verdade. O voto em deputados e senadores é tão decisivo quanto o voto no Executivo. É ali que se decide se o governo caminha para frente ou se será permanentemente sabotado por interesses privados travestidos de legalidade.

A democracia não se esgota na urna, mas começa nela. Enquanto o eleitor continuar renovando mandatos de quem legisla contra o povo, a indignação seguirá sendo o único discurso coerente nas ruas e nas redes. E, nesse contexto, chamar de “inimigo do povo” quem age sistematicamente contra seus interesses não é radicalismo — é diagnóstico.

Imagem Gerada por IA Chat GPT

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