Por Damata Lucas
Um novo episódio de violência sexual chocou Teresina e escancarou, mais uma vez, a urgência de enfrentar crimes contra mulheres com firmeza e agilidade. A advogada Sara Ohana Costa denunciou ter sido vítima de um estupro após ter sido dopada dentro do Clube Social dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar do Piauí, localizado no bairro Cristo Rei, zona Sul da capital. O caso, registrado na noite da última quinta-feira (19), está sendo investigado pela 6ª Delegacia de Polícia.
Segundo o Boletim de Ocorrência, Sara relatou que estava no clube com um homem com quem mantinha um relacionamento casual e alguns amigos dele. Ela conta que passou mal após consumir bebidas alcoólicas e foi levada a um quarto do alojamento para descansar — e ali sua memória se apagou. Ao despertar, horas depois, percebeu-se completamente nua, com fortes dores nas partes íntimas, sinais de laceração e fluidos corporais nas pernas. A porta do quarto estava trancada por dentro, e as chaves foram encontradas jogadas no chão.
Sara acredita que sua bebida tenha sido adulterada. Ela conseguiu acionar ajuda subindo ao palco do clube e pedindo socorro publicamente. Uma assistente social que estava presente prestou auxílio imediato e a acompanhou até a Central de Flagrantes, onde foi formalizada a denúncia e solicitado o encaminhamento ao Serviço de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual (SAMVVIS).
O companheiro que a acompanhava na festa, ao ser confrontado, fugiu do local e segue desaparecido. Os demais presentes, segundo a advogada, não prestaram auxílio. A Polícia Civil colhe depoimentos, realiza diligências e aguarda os exames toxicológicos e de corpo de delito para aprofundar a investigação.
Pronunciamentos oficiais: Polícia Militar e AADPCEPI
A denúncia repercutiu fortemente por envolver, indiretamente, o ambiente de uma entidade militar. Em nota oficial, a Polícia Militar do Piauí (PMPI) repudiou qualquer tentativa de vincular o crime a policiais militares e prestou solidariedade à vítima:
“Repudiamos veementemente a denúncia ‘fake’ contra policiais militares propagada por veículos de imprensa, acusando injustamente membros da corporação. A própria vítima esclareceu que os criminosos não são policiais militares. Reafirmamos nosso compromisso de defender as mulheres e a segurança da população, sem tolerância à impunidade.”
Já a Associação dos Advogados e Defensores Públicos Criminalistas do Estado do Piauí (AADPCEPI) emitiu nota contundente de repúdio e solidariedade:
“Esse ato hediondo fere gravemente a dignidade da vítima. Reafirmamos nosso compromisso de acompanhar todas as diligências, prestar apoio à colega e garantir que os autores sejam identificados e punidos conforme a lei. Não vamos permitir que esse crime fique impune. Estamos ao lado da vítima desde o início, acompanhando os exames, investigações e medidas legais.”
Estupro por vulnerabilidade: crime silencioso e devastador
O caso de Sara se encaixa no crime tipificado como estupro de vulnerável, previsto no artigo 217-A do Código Penal: manter relação sexual com alguém incapaz de oferecer consentimento consciente — seja por uso de entorpecentes, embriaguez ou outros fatores.
Esse tipo de agressão é recorrente em contextos de festas, bares e encontros casuais, onde agressores utilizam drogas conhecidas como “boa noite Cinderela” para dopar vítimas, anulando sua capacidade de reação. Muitas vezes, o crime só é percebido após a ocorrência, o que dificulta a obtenção de provas e o processo de responsabilização.
Como se prevenir desse tipo de crime?
Embora a responsabilidade jamais seja da vítima, alguns cuidados podem ajudar a reduzir os riscos:
- Nunca deixe sua bebida fora de vista em festas ou bares.
- Evite aceitar bebidas de desconhecidos ou pessoas pouco confiáveis.
- Desconfie de mudanças súbitas no corpo ou na percepção — como sonolência ou confusão mental.
- Ao sentir qualquer anormalidade, busque ajuda imediatamente.
- Compartilhe sua localização em tempo real com alguém de confiança.
- Em caso de suspeita de abuso, vá direto ao SAMVVIS ou a um hospital com protocolo de atendimento especializado para vítimas de violência sexual.
O papel da investigação e o combate à impunidade
A Polícia Civil do Piauí reforçou que o caso está sendo conduzido com prioridade, com coleta de provas, exames periciais e análise de câmeras do local. “Todo esforço será feito para identificar os responsáveis e levá-los à Justiça”, informou um agente envolvido na investigação.
A repressão efetiva a crimes sexuais exige celeridade e integração entre as instituições. A denúncia da vítima foi fundamental para acionar o sistema de proteção e investigar os autores. O silêncio, infelizmente, ainda é comum, por medo de represálias ou julgamentos sociais.
A coragem de uma vítima, a vergonha de um sistema que ainda falha
Sara Ohana expôs sua dor e indignação nas redes sociais:
“Não tenho vergonha de dizer que estava ao lado de alguém em quem confiava e que bebi. O que fizeram comigo foi cruel e criminoso. E não, não foram policiais. Mas foram homens. Homens que se acham no direito de usar o corpo de uma mulher desacordada.”
Seu relato comove, revolta e, sobretudo, cobra justiça.
Imagem: Damata Lucas


