A megaoperação deflagrada na manhã desta quinta-feira (27) escancara mais uma vez a capacidade do crime organizado de se infiltrar em estruturas empresariais, utilizar mecanismos financeiros sofisticados e movimentar cifras bilionárias à margem da lei, com apoio de pessoas ligadas ao poder público e ao setor privado. Dessa vez, o foco recai sobre o Grupo Refit, dono da antiga refinaria de Manguinhos (RJ), e uma rede de distribuidoras de combustíveis espalhadas por todo o país.
O esquema, liderado pelo empresário Ricardo Magro, é investigado por fraudes fiscais, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa. Ele é apontado como o maior devedor de ICMS em São Paulo, o segundo no Rio e um dos maiores da União. Apenas em tributos sonegados, os prejuízos estimados chegam a R$ 26 bilhões.
O dinheiro do crime financiando negócios legais
As investigações revelam um modelo de lavagem de dinheiro especialmente refinado. A estrutura utilizava:
- holdings e offshores em paraísos fiscais;
- fintechs e fundos de investimento fechados;
- pagamentos cruzados e contratos simulados;
- aquisição de imóveis e participações societárias no Brasil e exterior.
A Receita já identificou 17 fundos operados pelo grupo, somando R$ 8 bilhões, muitos deles com apenas um cotista, geralmente outra empresa do mesmo esquema, o que cria uma cadeia de ocultação. Há indícios concretos de que administradoras de fundos e entidades estrangeiras colaboraram ativamente, omitindo informações das autoridades fiscais.
Parte dessas estruturas foi criada em Delaware, nos Estados Unidos, jurisdição conhecida pela possibilidade de registro de empresas LLC com alto nível de anonimato e isenção tributária — recurso comumente associado a operações de blindagem patrimonial e lavagem de dinheiro.
Entre 2020 e 2025, um braço internacional operou por meio da compra de uma exportadora em Houston (Texas), através da qual foram importados combustíveis avaliados em mais de R$ 12,5 bilhões, muitos deles de forma irregular.
Mais de 15 offshores americanas já foram identificadas. Recursos superiores a R$ 1,2 bilhão foram enviados ao exterior como contratos de mútuo, que podem ser reinjetados no Brasil como “investimentos legais”, fechando o ciclo de lavagem.
Um esquema que ultrapassa fronteiras e envolve poder político
Assim como apontado na Operação Carbono Oculto, que evidenciou a atuação do PCC no setor de combustíveis, os investigadores afirmam que o crime organizado tem usado o segmento energético como plataforma de reprodução financeira, com participação de empresários, agentes financeiros e, segundo fontes internas, políticos com atuação legislativa ativa.
Apesar do volume de provas e dos valores encontrados, os nomes de empresários e representantes políticos supostamente envolvidos ainda não foram revelados com transparência, o que gera revolta em setores da sociedade e entre especialistas em combate à corrupção.
Estado tenta reação, mas esbarra em resistência no Congresso
O Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de SP (Cira-SP) bloqueou R$ 8,9 bilhões em bens. Paralelamente, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional obteve a indisponibilidade de R$ 1,2 bilhão na Justiça Federal.
A operação envolveu 621 agentes públicos em cinco estados (SP, RJ, MG, BA, MA) e no Distrito Federal, mobilizando Ministério Público, Receita Federal, órgãos fazendários e polícias Civil e Militar.
Diante do cenário, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, voltou a cobrar que a Câmara dos Deputados vote o projeto que cria um regime específico para punir o devedor contumaz — aquele que sonega impostos de forma sistemática com objetivo de financiar esquemas criminosos.
“Todo criminoso precisa lavar o dinheiro do crime e usa expedientes formais. A lei do devedor contumaz asfixia o crime e dificulta a vida do criminoso para que ele não faça o dinheiro rodar na atividade criminosa”, declarou Haddad.
O projeto tramita há oito anos e, mesmo após aprovação unânime no Senado, segue enfrentando resistência na Câmara, sobretudo de grupos ligados a setores empresariais e econômicos com grande influência política.
A pergunta que fica
A sucessão de operações revela que o crime organizado não atua apenas nas periferias ou no narcotráfico, mas também nos escritórios corporativos, nas estruturas financeiras e nos ambientes de poder. Enquanto os nomes mais poderosos permanecerem ocultos, a sensação é de que a lei alcança os operadores, mas protege os articuladores.
Até quando o país tolerará que o crime organizado continue operando sob a fachada da legalidade, com respaldo de figuras influentes e atropelando a capacidade arrecadatória do Estado?
Por Damatta Lucas – Imagem Gerada por IA Chat GPT


