Em cada esquina, rua estreita ou viela esquecida pela pressa da cidade, há um olhar atento que se preocupa com a saúde do outro. São os Agentes Comunitários de Saúde e de Combate às Endemias, profissionais que percorrem casas, vilas, favelas e bairros inteiros para levar informação, prevenção e cuidado onde muitas vezes o Estado não chega. Eles são o elo entre o sistema público de saúde e a população — escutam, orientam, identificam riscos, ajudam a salvar vidas.
Mas quem cuida de quem cuida? Essa pergunta ganhou resposta concreta com uma iniciativa recente da Câmara Municipal de Teresina. Um projeto de lei apresentado pelo vereador João Pereira (PT) propõe ajustar a rotina de trabalho desses agentes durante os meses mais quentes do ano — setembro a dezembro, o famoso B-R-O BRÓ —, quando as temperaturas na capital piauiense podem ultrapassar os 40 °C.
A proposta não reduz a carga horária de 40 horas semanais, mas tem um objetivo simples e profundamente humano: proteger a saúde e a vida daqueles que dedicam seus dias a proteger a saúde dos outros. A ideia é reorganizar as atividades de campo, limitando a exposição solar nos períodos de maior risco e garantindo condições de trabalho mais seguras e adequadas à realidade climática local.
“Esses profissionais têm relatado enormes dificuldades para exercer suas funções sob calor extremo. Nosso objetivo é oferecer condições dignas, preservando a saúde de quem cuida da população”, explicou o vereador João Pereira ao apresentar a proposta.
Um trabalho essencial — e muitas vezes invisível
Poucas profissões representam tão bem a essência do serviço público quanto a dos agentes comunitários. Eles são presença constante nas comunidades, visitando lares, acompanhando gestantes, monitorando casos de doenças, incentivando campanhas de vacinação e realizando ações preventivas que reduzem internações e salvam milhares de vidas todos os anos.
São também peças-chave no combate às endemias, como a dengue, zika e chikungunya, mapeando criadouros, orientando moradores e atuando diretamente na prevenção de surtos. Em muitos territórios, especialmente nas periferias urbanas e zonas rurais, o agente é a única presença regular do sistema de saúde, criando vínculos de confiança e construindo pontes entre o Estado e a comunidade.
Apesar disso, esse trabalho fundamental ainda é, muitas vezes, invisível e subvalorizado. Enfrentando sol escaldante, chuva intensa, terrenos irregulares e jornadas longas, esses profissionais colocam a saúde da população acima do próprio conforto e bem-estar.
Uma ação necessária diante das mudanças climáticas
A proposta do vereador João Pereira vai além do cuidado individual — ela responde a um desafio global de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que mais de 2,4 milhões de trabalhadores no mundo estão em risco devido às ondas de calor extremo, um fenômeno cada vez mais frequente em razão das mudanças climáticas.
O estresse térmico, quando não prevenido, pode provocar insolação, desidratação, danos renais e até distúrbios neurológicos. Por isso, a OMS recomenda que governos adotem políticas de proteção aos trabalhadores expostos ao calor, como ajuste de jornadas, capacitação e campanhas de conscientização — exatamente o que propõe a lei apresentada em Teresina.
Humanizar a política para fortalecer o SUS
Ao apresentar o projeto, João Pereira não está apenas propondo uma mudança administrativa; está dando um passo importante na humanização das políticas públicas. É uma iniciativa que reconhece o valor desses profissionais e reafirma que cuidar da saúde pública começa por garantir a saúde de quem está na linha de frente.
“Com essa lei, as atividades em campo terão seus horários ajustados, limitando a exposição ao sol nos períodos de maior risco, garantindo mais saúde e segurança para quem cuida da nossa população”, afirmou o vereador em publicação nas redes sociais.
O exemplo de Teresina pode — e deve — inspirar outras cidades brasileiras. Afinal, proteger os agentes comunitários é proteger a base do Sistema Único de Saúde (SUS), que se sustenta na atenção básica e na presença constante do Estado dentro das comunidades.
Ao valorizar esses trabalhadores, o poder público não apenas reconhece sua importância — ele fortalece o pacto coletivo pelo cuidado, a solidariedade e a dignidade humana. E, em tempos de tantos desafios, essa proposta do vereador João Pereira é mais do que uma política: é um gesto de civilização.
Por Damatta Lucas – Imagem: Arquivo Pessoal


