A infância, tradicionalmente associada à leveza, ao riso fácil e à descoberta do mundo, pode esconder dores profundas e invisíveis. A depressão infantil, embora ainda cercada de tabus e desinformação, é uma realidade alarmante e crescente. Segundo especialistas, esse transtorno pode comprometer seriamente o desenvolvimento emocional, cognitivo e social da criança se não for identificado e tratado a tempo.
A médica neurologista infantil Gladys Arnez, especialista em Transtornos do Neurodesenvolvimento, alerta que a depressão não escolhe idade e pode atingir crianças ainda muito pequenas. “É fundamental que pais, professores e cuidadores estejam atentos aos sinais. O sofrimento psíquico, quando ignorado, pode desencadear uma série de prejuízos ao longo da vida”, afirma.
Um problema crescente e pouco diagnosticado
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 10% e 20% das crianças e adolescentes em todo o mundo enfrentam algum transtorno mental, sendo a depressão uma das condições mais prevalentes. No Brasil, estimativas do Ministério da Saúde sugerem que cerca de 2% das crianças menores de 12 anos podem apresentar sintomas compatíveis com o transtorno depressivo.
Muitos fatores estão por trás desse crescimento: mudanças no estilo de vida, uso excessivo de telas, pressão escolar, desestruturação familiar, luto, violência doméstica e bullying estão entre os mais citados. Além disso, há uma importante questão de falta de informação e de escuta qualificada, o que leva ao atraso nos diagnósticos e, consequentemente, nos tratamentos.
Sinais que merecem atenção
O desafio começa pelo reconhecimento dos sintomas, que muitas vezes são confundidos com “birra”, “manha” ou simplesmente “timidez”. Entre os principais sinais da depressão infantil, destacam-se:
- Alterações bruscas no apetite ou no peso (ganho ou perda);
- Mudanças no sono: insônia ou sono excessivo;
- Isolamento social, evitando contato até com familiares;
- Perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas;
- Irritabilidade, agressividade ou agitação acima do habitual;
- Queixas constantes de dores físicas sem causa aparente (como dor de cabeça ou dor na barriga);
- Dificuldade de concentração e queda de rendimento escolar;
- Choro frequente, sem causa evidente;
- Comportamento regressivo (como voltar a urinar na cama, uso de chupeta, entre outros);
- Frases que expressem desesperança, baixa autoestima ou pensamentos sobre morte.
“Cada criança é única, e os sintomas podem se manifestar de formas diferentes. Porém, a presença de múltiplos sinais deve sempre servir de alerta para a busca de acompanhamento profissional”, orienta a neurologista.
Importância do diagnóstico precoce
A neurologia infantil desempenha um papel essencial nesse contexto, pois muitos casos estão associados a desequilíbrios neuroquímicos que podem ser tratados com acompanhamento adequado. Em muitos casos, a depressão infantil está relacionada a alterações na regulação de neurotransmissores como serotonina e dopamina.
Gladys Arnez, que também atua com tratamentos neurológicos utilizando toxina botulínica para casos como paralisia cerebral, autismo e sequelas de AVC, destaca que o tratamento precoce da depressão em crianças é decisivo para o sucesso terapêutico. “Quanto antes iniciarmos, maiores as chances de plena recuperação e de evitar complicações emocionais ou psiquiátricas mais graves na adolescência e vida adulta”, reforça.
Caminhos para o cuidado e prevenção
Além do tratamento médico, é fundamental que o acolhimento emocional da criança seja garantido por meio de:
- Escuta ativa e empática por parte dos pais e responsáveis;
- Ambientes seguros e afetivos em casa e na escola;
- Limitação do tempo de exposição a telas;
- Promoção de atividades físicas e artísticas;
- Encaminhamento para psicoterapia infantil, quando necessário;
- Orientação familiar e acompanhamento conjunto com psiquiatras ou neurologistas, se indicado.
“A saúde mental deve ser tratada com a mesma seriedade da saúde física. Cuidar da saúde emocional das crianças é um investimento no futuro da sociedade. Por isso, observe, escute e, se necessário, procure ajuda especializada”, conclui a especialista.
Redação Clique PI – Imagem: Freepik


