Diante da força bruta, o silêncio não é neutralidade: é cumplicidade

Por Severino Severo para Clique PI

Há momentos na política internacional em que a chamada “prudência diplomática” deixa de ser virtude e passa a ser omissão histórica. A agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela empurrou o Brasil exatamente para esse ponto de inflexão. Não se trata de afinidade ideológica com o governo de Nicolás Maduro, tampouco de alinhamento automático a qualquer regime. Trata-se de algo muito maior e mais grave: a defesa da soberania dos Estados, do direito internacional e da estabilidade de toda a América Latina e do Caribe.

Analistas apressados insistem em afirmar que uma posição firme do presidente Lula poderia representar risco à diplomacia brasileira ou comprometer a recente reaproximação entre Brasil e Estados Unidos após anos de atritos. Esse argumento, porém, ignora um dado central da realidade: não foi o Brasil quem rompeu regras, tratados ou acordos internacionais. Quem o fez, de maneira escancarada e sem precedentes, foi o governo de Donald Trump.

O ataque militar em território venezuelano, culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, levados à força para os Estados Unidos, não é apenas uma violação frontal da soberania de um país vizinho. É um recado perigoso a toda a região: qualquer governo latino-americano pode ser alvo da força bruta quando contrariar interesses estratégicos de Washington.

A história recente não permite ingenuidade. Trump já demonstrou, de forma explícita, desprezo pelas regras internacionais ao impor tarifas abusivas a produtos brasileiros, ferindo acordos comerciais, e ao tentar interferir diretamente em decisões do Supremo Tribunal Federal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado. Agora, ao atacar a Venezuela sem qualquer aval multilateral, deixa ainda mais claro que o respeito à ONU, ao direito internacional e às instâncias de mediação global simplesmente não faz parte de sua agenda.

Nesse contexto, o silêncio do Brasil não seria neutralidade. Seria anuência. Seria aceitar que a América do Sul volte a ser tratada como quintal geopolítico, sujeita a intervenções unilaterais, bombardeios seletivos e capturas extraterritoriais de chefes de Estado. O precedente é devastador.

Por isso, a decisão do Brasil de se manifestar na reunião do Conselho de Segurança da ONU, mesmo sem ser membro permanente, é correta, necessária e estratégica. Ao usar a prerrogativa da regra 37, o país afirma que a agressão à Venezuela atinge diretamente seus interesses nacionais e regionais, porque ameaça a paz, a integração e a segurança de todo o continente.

A fala do embaixador Sergio Danese deve reforçar aquilo que já foi corretamente expresso pelo presidente Lula: a condenação inequívoca ao uso da força sem respaldo multilateral e a defesa inegociável da soberania dos Estados. Não se trata de retórica vazia, mas de reafirmar princípios que sustentam a própria existência da diplomacia moderna.

É verdade que, hoje, decisões da ONU parecem ter pouco efeito prático diante do poder militar e econômico dos Estados Unidos. Ainda assim, as posições públicas dos países importam. Elas constroem pressão política, isolam o agressor, registram na história quem se calou e quem se posicionou. A ausência de reação internacional é exatamente o combustível que alimenta novas aventuras militares.

O Brasil não pode — e não deve — ficar de braços cruzados. Defender a Venezuela, neste caso, é defender a América Latina, o Caribe e o próprio Brasil. É afirmar que divergências políticas não autorizam guerras, sequestros ou bombardeios. É dizer, de forma clara, que a lei do mais forte não pode substituir o direito internacional.

Quando a força tenta se impor como regra, a diplomacia precisa ser firme. E firmeza, neste momento, não é radicalismo. É responsabilidade histórica.

Imagem Gerada por IA Chat GPT

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