Estava demorando. Mas era previsível. A velha mídia brasileira, essa mesma que se diz imparcial, que jura compromisso com a verdade, mas que jamais abandonou sua vocação conservadora, resolveu abandonar a ambiguidade e escancarar sua posição. Saiu de cima do muro – onde nunca esteve de verdade – para alinhar-se, mais uma vez, com os setores mais retrógrados da política nacional: a direita e a ultradireita. Agora, de forma ruidosa e estratégica, se une aos extremistas que atacam o Congresso Nacional, deslegitimam o governo democraticamente eleito e vilipendiam ministros do Supremo Tribunal Federal. Tudo isso, pasmem, em defesa de Jair Bolsonaro — o mesmo que a destratou, ameaçou e desautorizou quando ocupava a Presidência da República.
Trata-se de uma aliança perversa, porém antiga. A história não deixa mentir. Durante os anos de chumbo da ditadura militar (1964–1985), a grande imprensa brasileira não apenas apoiou o golpe como funcionou como sua aliada logística e ideológica. Forjou narrativas para justificar a repressão, silenciou diante das torturas e omitiu a luta dos que resistiam em nome da democracia. Agora, em pleno 2025, com uma democracia ferida ainda se reconstruindo dos escombros do 8 de janeiro de 2023, quando golpistas tentaram destruir os três poderes da República, essa mesma imprensa volta a flertar com o autoritarismo.
É importante dizer: Bolsonaro é réu. Não por acaso ou perseguição. Mas por suspeita de liderar uma tentativa de golpe de Estado, manipular instituições, atacar o sistema eleitoral e orquestrar, junto com militares e civis, um plano para sabotar a democracia brasileira. A decisão do STF de decretar sua prisão domiciliar é grave, sim — não por injustiça, mas por ser um reflexo da gravidade dos crimes que o ex-presidente é acusado de cometer. Ainda assim, jornalistas de grandes veículos, colunistas e comentaristas que antes se diziam “neutros” agora se apressam em defender “garantias legais” e “excessos do Judiciário” — esquecendo, propositalmente, os ataques à Constituição, à soberania e à estabilidade institucional do país.
É o mesmo script da extrema-direita internacional. Nos Estados Unidos, Donald Trump — que também responde a processos por tentativa de golpe e conspiração — agora usa a chamada Lei Magnitsky para sancionar Alexandre de Moraes, numa jogada política de pura retaliação. E não para por aí: o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que se mudou para os EUA, atua abertamente contra os interesses do Brasil, promovendo eventos com militantes da alt-right e reforçando a rede de desinformação global que opera contra governos progressistas da América Latina.
Nesse cenário surreal, o Brasil está sob ataque. Um ataque híbrido, que mistura lawfare, guerra de narrativas, sabotagem legislativa e articulações transnacionais. E o que faz parte da velha imprensa? Ajuda. Amplifica. Normaliza. Ignora, seletivamente, os fatos. E posa de vítima quando confrontada.
Não podemos cair de novo nessa armadilha. A sociedade brasileira já viu esse filme antes e sabe onde ele termina: em perda de direitos, repressão, censura, destruição da democracia e morte dos mais vulneráveis.
É preciso reagir. Com firmeza e com paz. Brasileiros e brasileiras que querem um país soberano, democrático e justo precisam ocupar as ruas, as redes, os espaços de debate. Precisam defender as instituições, cobrar coerência da imprensa, exigir responsabilidade de parlamentares e apoiar o trabalho das autoridades que ainda se mantêm fiéis à Constituição.
A neutralidade diante do abuso é cumplicidade. E amar a democracia é, antes de tudo, ter coragem para defendê-la dos seus sabotadores — estejam eles em Brasília, em Miami ou nas redações que se travestem de imparciais, mas que sempre souberam muito bem de que lado estão.
Imagem: ChatGPT


