Editorial | Anistia: o vício que mantém viva a tradição golpista no Brasil

O desfile de 7 de Setembro em São Paulo transformou-se, pelas palavras de Tarcísio de Freitas, em um palanque de ataques à democracia. O governador, pupilo de Jair Bolsonaro, vociferou contra a Suprema Corte, chamou o ministro Alexandre de Moraes de tirano e exigiu anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro. Mais do que um gesto político de sobrevivência dentro da seita bolsonarista, trata-se de um movimento calculado: apresentar-se como herdeiro do ex-presidente e, ao mesmo tempo, legitimar a narrativa de que não houve tentativa de golpe no Brasil em 2023.

Mas a história desmente Tarcísio. O Brasil tem uma genealogia de golpes que se repete como uma sina nacional. O historiador Carlos Fico, em sua obra Utopia Autoritária Brasileira, demonstra que entre 1889 e 2023 ocorreram catorze sublevações: sete tentativas frustradas e sete bem-sucedidas. Em todos esses episódios, um traço se repete — a presença dos militares como artífices da instabilidade e a impunidade como combustível da reincidência.

Fico cunhou a expressão “utopia autoritária” para explicar essa mentalidade que atravessa século: a crença de que os militares têm uma missão especial de tutelar o país, ainda que pela força. Essa mentalidade, forjada na Guerra do Paraguai e perpetuada ao longo da República, não apenas instigou crises, como alimentou ditaduras. A tentativa de golpe em 2023 — com planos de assassinato do presidente eleito — é o exemplo mais chocante dessa tradição.

É justamente nesse ponto que o discurso de Tarcísio se torna perigoso. Quando clama por anistia, ele não defende apenas Bolsonaro e seus aliados: ele reafirma a lógica de que o crime político, quando contra a democracia, deve ser perdoado. É a impunidade de ontem garantindo a conspiração de amanhã.

O jornalista Josias de Sousa sintetizou bem: “A anistia não é pacificação, é problema. É o lero-lero que mantém o ciclo da impunidade.” O Brasil precisa romper com esse vício histórico. A cada perdão concedido, novas sublevações se gestaram. A cada golpe sem consequência, a democracia sangrou mais profundamente.

Não se trata de vingança, mas de justiça. Um país que não responsabiliza golpistas abre mão de sua soberania democrática. O 8 de Janeiro não foi uma “brincadeira de malucos”, mas um ataque frontal às instituições. Se novamente prevalecer a lógica da anistia, estaremos apenas empurrando o próximo golpe para daqui a alguns anos — e, talvez, ele seja bem-sucedido.

Tarcísio de Freitas aposta no tudo ou nada. Mas o Brasil não pode apostar sua democracia nesse jogo perigoso. O momento exige firmeza: golpe precisa ter consequência. Só assim romperemos o ciclo de impunidade que arrasta o país para as trevas há mais de um século.

Por Damatta Lucas – Imagem: ChatGPT

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