Por Damatta Lucas
A diplomacia internacional atravessa uma de suas fases mais tensas no século XXI. A volta de Donald Trump à Casa Branca reacende velhos fantasmas de unilateralismo, ataques à ordem multilateral e a imposição de sanções como instrumento de coerção. As recentes medidas de sua administração — entre elas a revogação de vistos para líderes estrangeiros que participariam da Assembleia Geral da ONU — não apenas minam os pilares do direito internacional, mas também acendem o alerta sobre o risco de os Estados Unidos mergulharem em um isolamento diplomático sem precedentes.
Trump, desde o seu primeiro mandato, optou por uma política tarifária agressiva e um discurso nacionalista de “America First”. Agora, em sua nova investida, o tom se torna ainda mais beligerante: o uso da máquina estatal não apenas para impor tarifas comerciais, mas também para selecionar quem pode ou não ter voz nos fóruns multilaterais. A ONU, instituição que nasceu para mediar conflitos e garantir espaço de diálogo, passa a ser palco de exclusão, determinada pelo humor do ocupante da Casa Branca.
Venezuela: o pretexto e os verdadeiros interesses
A retórica de Trump sobre a necessidade de “estancar o narcotráfico” na Venezuela é emblemática. Por trás do discurso moralista de combate ao crime organizado, paira o interesse econômico mais óbvio: o petróleo. A América Latina, historicamente, sempre esteve na mira da política externa norte-americana quando se trata de recursos estratégicos. As ameaças de intervenção militar contra Caracas não escondem apenas uma disputa geopolítica, mas revelam também um desejo de controle sobre reservas de energia fundamentais em um cenário global de transição energética, onde o petróleo, embora questionado, ainda é peça-chave para sustentar economias dependentes de combustíveis fósseis.
Impactos internos nos EUA
A política de sanções e de enfrentamento externo também traz efeitos para dentro de casa. Ao isolar parceiros comerciais e elevar tarifas, Trump pode estar alimentando um ciclo inflacionário interno, encarecendo produtos de consumo básico e pressionando a classe média americana — base eleitoral crucial em sua estratégia política. Se, por um lado, a narrativa nacionalista mobiliza setores mais conservadores, por outro, a alta no custo de vida gera desgaste e pode corroer parte de seu capital político.
O Brasil no centro da tensão
Nesse tabuleiro, o Brasil ocupa posição de destaque. Lula, ao contrário de outros líderes que se curvaram ao ímpeto de Trump, tem se colocado como um contraponto de resistência. O enfrentamento direto, em defesa da soberania nacional e do Judiciário brasileiro — alvo de críticas e pressões explícitas da Casa Branca —, reposiciona o Brasil no cenário internacional como um país que não aceita imposições externas. A tensão aumenta diante das especulações de que Trump possa retaliar diretamente o presidente brasileiro, inclusive revogando vistos de entrada em território norte-americano.
Essa disputa ganha contornos ainda mais dramáticos quando o Supremo Tribunal Federal (STF) entra na linha de fogo. As pressões externas para barrar o julgamento de Jair Bolsonaro — investigado em ações penais que podem ter impacto profundo na política brasileira — evidenciam a tentativa da extrema-direita internacional de intervir em instituições soberanas de outros países. Trata-se de um ataque não apenas ao Brasil, mas a toda a lógica de independência do poder judiciário em sistemas democráticos.
Eduardo Bolsonaro e a extrema-direita internacional
A atuação de Eduardo Bolsonaro, ecoando as pautas trumpistas dentro e fora do país, reforça o alinhamento de parte da direita brasileira com a extrema-direita norte-americana. Essa conexão, consolidada durante o governo anterior, permanece como um elo de desestabilização política interna, servindo muitas vezes mais aos interesses externos do que aos nacionais.
Possíveis desfechos
O cenário futuro apresenta várias possibilidades:
- Isolamento americano: Se Trump insistir em minar a ONU e impor sanções sem respaldo internacional, os EUA podem perder protagonismo diplomático, abrindo espaço para potências como China e União Europeia ampliarem sua influência.
- Aprofundamento da crise Brasil-EUA: A pressão sobre o STF e as provocações a Lula podem gerar retaliações diplomáticas brasileiras, inclusive com fortalecimento de alianças com países do Sul Global.
- Custo político interno para Trump: O desgaste econômico e a insatisfação de consumidores podem corroer sua popularidade, ainda que seu eleitorado mais radical continue fiel.
- Fortalecimento da resistência internacional: Países que se sentem alvos da política trumpista podem articular novas coalizões, criando uma frente de resistência ao unilateralismo americano.
Conclusão
O momento atual é um divisor de águas para a política internacional. A agressividade de Donald Trump pode até mobilizar sua base interna, mas os riscos de isolamento diplomático e de desgaste econômico são palpáveis. Ao mesmo tempo, o Brasil, sob a liderança de Lula, surge como um ator central na defesa da soberania e da independência de suas instituições, enfrentando de cabeça erguida a pressão externa.
Mais do que um embate entre dois líderes, o que está em jogo é o futuro da ordem internacional: um mundo multipolar que resiste às imposições de uma potência, ou a volta de um unilateralismo que ameaça a própria ideia de cooperação global.


