A psicoterapeuta belga Esther Perel, uma das vozes mais influentes no debate contemporâneo sobre relacionamentos, faz um alerta que ressoa cada vez mais forte: estamos vivendo um processo de “atrofia social”.
Segundo ela, o mundo moderno não apenas convive com a solidão, mas está se dessocializando – perdendo as habilidades mais básicas de convivência, empatia e conexão interpessoal.
“Nós não temos que sair de casa para trabalhar, para comer, para comprar, para se exercitar, até mesmo para conhecer as pessoas. Não é apenas solidão, é isolamento autoimposto”, afirma.
A metáfora da rua que desapareceu
Filha de sobreviventes do Holocausto, Perel construiu sua carreira refletindo sobre a essência das relações humanas. Para ela, a perda da convivência espontânea é um dos sintomas mais claros dessa atrofia.
“Quantos de vocês cresceram brincando livremente na rua? E quantos de vocês têm filhos que ainda brincam assim? A rua é o terreno onde se aprende negociação social: criar e quebrar regras, fazer alianças, resolver conflitos. Sem isso, as habilidades sociais se atrofiam.”
Em sua visão, a tecnologia, a pressa do cotidiano e os modelos de vida cada vez mais individualizados estão minando a capacidade humana de lidar com o outro – seja na intimidade, seja no trabalho.
Relações como antídoto
Mas se o diagnóstico é preocupante, Perel também aponta um caminho: fortalecer os vínculos. Para ela, o convívio, a escuta ativa e a construção de laços sólidos são o verdadeiro antídoto contra a dessocialização.
Essa perspectiva inspira seus cursos, livros, podcasts e palestras, voltados tanto a indivíduos quanto a empresas que buscam melhorar a forma de lidar com conflitos, cultivar empatia e reforçar conexões.
Uma voz além da clínica
Esther Perel não é apenas uma terapeuta de consultório. Seus livros são best-sellers traduzidos em mais de 30 idiomas, suas palestras no TED ultrapassaram 40 milhões de visualizações, e seus podcasts – Where Should We Begin? (2017) e How’s Work? (2019) – conquistaram audiência global ao traduzirem a complexidade das relações humanas para situações reais.
Presença recorrente em grandes palcos, como o festival SXSW, Perel também entrou na cultura pop ao participar da série The Morning Show, ao lado de Jennifer Aniston. Sua marca é a capacidade de unir ciência, empatia e acessibilidade, tornando reflexões profundas sobre vínculos humanos próximas de qualquer público.
O alerta encontra a realidade
O recado de Perel chega em um momento em que a solidão se tornou um problema de saúde pública.
Relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre conexão social aponta que uma em cada seis pessoas no mundo sofre com a solidão – um fenômeno que não apenas afeta o bem-estar mental, mas tem impacto direto na saúde física. A pesquisa associa o isolamento a mais de 871 mil mortes anuais, o equivalente a cerca de 100 mortes por hora.
Reaprender a se conectar
Se a dessocialização ameaça nossa vitalidade coletiva, o convite de Esther Perel é direto: precisamos reaprender a nos conectar.
Em casa, no trabalho ou nos espaços públicos, o desafio é resgatar o convívio humano em sua forma mais simples – olho no olho, escuta ativa, construção de confiança.
Talvez o primeiro passo seja justamente reconhecer o que estamos perdendo: a rua como metáfora da vida em comum. E, a partir daí, recuperar a arte de viver juntos.
Da Redação, com informações Catraca Livre – Imagem: Freepik


