Durante muito tempo, a ex-presidente Dilma Rousseff foi alvo de chacota, piadas e ataques políticos por uma declaração feita em 2015, durante discurso na Assembleia Geral da ONU, onde mencionou a possibilidade de “estocar vento”. Ridicularizada pela oposição e até mesmo por parte da imprensa, a frase virou símbolo — injusto — da suposta inépcia técnica da ex-presidente. Mas, passados quase dez anos, o mundo caminha exatamente na direção do que ela disse: a necessidade de armazenar energias renováveis como a solar e a eólica tornou-se um dos pilares da transição energética global.
Neste sábado (5), em entrevista durante evento do Brics no Rio de Janeiro, Dilma voltou ao tema:
“No passado, lembro que disse que tinha que armazenar vento e sol. Pois muito bem, saibam que essa é uma das áreas mais importantes para resolver problemas como o que ocorreu em Portugal e na Espanha”, declarou, referindo-se à crise energética europeia causada por instabilidades no fornecimento de gás natural e à oscilação na produção renovável.
O que realmente significa “estocar vento”?
Na prática, Dilma não estava falando de colocar o vento em garrafas — como muitos memes quiseram fazer parecer. A ex-presidente se referia ao grande desafio da engenharia energética moderna: armazenar a eletricidade gerada por fontes intermitentes, como o sol e o vento, para uso posterior.
A energia solar só é produzida quando há luz, e a eólica, quando há vento. Mas o consumo de energia é constante, 24 horas por dia. Por isso, armazenar a energia gerada — ou seja, “estocar o vento” — é fundamental para garantir segurança energética. Hoje, países como Alemanha, Dinamarca, China, EUA e Austrália investem pesado em baterias de larga escala, hidrogênio verde e outras formas de armazenamento.
Armazenamento de energia: realidade e inovação
Atualmente, a capacidade global de armazenamento de energia ultrapassa os 240 gigawatts-hora, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), e deve quadruplicar até 2030. Grandes empresas como Tesla, Siemens e General Electric já operam com baterias industriais capazes de guardar energia eólica para abastecer cidades inteiras durante períodos de baixa produção.
Além das baterias de lítio, alternativas como o bombeamento hidráulico reversível (armazenar energia elevando água e depois liberando-a para gerar eletricidade) e a compressão de ar em cavernas subterrâneas são tecnologias já utilizadas em vários países.
Ou seja: estocar vento é uma metáfora válida para um desafio técnico real, urgente e em plena evolução.
A misoginia disfarçada de deboche
Boa parte das críticas feitas à fala de Dilma à época não foram apenas técnicas — foram políticas e, em muitos casos, misóginas. Enquanto homens são muitas vezes celebrados por “pensar fora da caixa”, Dilma foi taxada de “analfabeta”, “confusa” e “louca” por antever um caminho que hoje é consenso entre especialistas em energia.
O episódio expõe não só o despreparo técnico de quem zombou da fala, mas também a cultura política tóxica que se alimenta da desinformação para deslegitimar mulheres em posições de poder.
Desdolarização e desafios globais
Durante o mesmo evento no Rio, Dilma também foi questionada sobre a chamada “desdolarização” das economias do sul global. Com clareza, ela respondeu:
“Eu não vejo, claramente, nenhum sinal de desdolarização. O que eu vejo é muitos países usando suas próprias moedas para comerciar. […] o mercado financeiro internacional continua dolarizado”.
Mais uma vez, Dilma apresenta um diagnóstico técnico e realista. Embora o debate sobre a hegemonia do dólar cresça no Brics, a moeda americana segue dominando mais de 80% das transações internacionais e compõe a maioria das reservas cambiais dos bancos centrais no mundo.
Conclusão: entre o riso e a razão
A frase “estocar vento”, tão atacada no passado, prova-se hoje como uma visão antecipada dos dilemas energéticos do século XXI. Dilma Rousseff, apesar dos ataques, enxergou com clareza o que o mundo técnico agora confirma com bilhões de dólares em investimentos.
A história faz justiça, ainda que tarde. Quem riu, hoje paga a conta da própria ignorância — com juros, correção e apagões.
Por Damata Lucas – Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil


