As informações falsas que circularam no início de 2025 sobre uma suposta intenção do governo Lula de taxar o Pix se tornaram um dos principais obstáculos para o avanço de medidas que poderiam ter fechado brechas hoje usadas pelo crime organizado no sistema financeiro. A avaliação foi reforçada nesta quinta-feira (28), com a deflagração da operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, em parceria com o Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal, que desarticulou um esquema de lavagem de dinheiro vinculado ao PCC e movimentado a partir da Avenida Faria Lima, coração financeiro do país.
A narrativa de que o Pix seria taxado viralizou após a publicação de um vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que alcançou mais de 200 milhões de visualizações. No material, o parlamentar afirmava que uma nova norma da Receita Federal representava um ataque ao bolso dos brasileiros. Na prática, a medida apenas ampliava o monitoramento de operações feitas por fintechs, equiparando-as às exigências já aplicadas aos bancos.
A onda de desinformação foi tamanha que o governo recuou e revogou a regra em janeiro, em meio a uma crise política e à pressão popular alimentada pelas fake news. “Mais de 200 fintechs permaneceram fora do alcance da Receita, o que impactou diretamente a visibilidade sobre os fluxos financeiros usados pelo crime”, explicou Andrea Costa Chaves, subsecretária de fiscalização da Receita.
Segundo a investigação, o crime organizado se aproveitou justamente da ausência de fiscalização sobre essas instituições para movimentar bilhões em recursos ilícitos. A operação revelou ainda que a estrutura paralela permitiu a lavagem de dinheiro em larga escala, dificultando o rastreamento digital por parte das autoridades.
Diante do escândalo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que a exigência de reporte das fintechs será restabelecida por instrução normativa já nesta sexta-feira (29). “A partir de agora, terão de prestar os mesmos esclarecimentos sobre movimentações financeiras que os bancos tradicionais. Isso permitirá destrinchar outros esquemas de lavagem com mais rapidez”, afirmou.
A repercussão política também chegou à esfera judicial. O deputado Rogério Correia (PT-MG) protocolou uma notícia-crime na Procuradoria-Geral da República contra Nikolas Ferreira, acusando-o de ter favorecido, por meio da disseminação de fake news, a infraestrutura do crime organizado.
“Ao disseminar informações falsas com alcance de milhões de visualizações, o noticiado [Nikolas] possivelmente contribuiu de forma decisiva para criar brechas regulatórias que fragilizaram o sistema de rastreamento digital”, escreveu Correia.
O petista pede que o caso seja investigado por crimes de divulgação de informação falsa ou incompleta sobre instituições financeiras, lavagem de dinheiro, organização criminosa e associação ao tráfico de drogas. Também solicita a remoção imediata do vídeo e medidas de quebra de sigilos bancários e telefônicos.
Enquanto isso, autoridades reforçam que a regulação do sistema financeiro é peça-chave para evitar que esquemas de lavagem de dinheiro se consolidem no país. “Se a regra tivesse sido mantida no começo do ano, boa parte desse esquema já estaria sob investigação”, admitiu uma fonte ligada à Receita.
Fonte: Da Redação – Imagem: IA Chat


