Feminicídio no Brasil: quando a violência vira rotina e o Estado falha onde mais deveria proteger

O Brasil atravessa uma crise silenciosa — mas absolutamente letal — contra suas mulheres. E nada ilustra melhor esse colapso do que o cenário registrado no estado de São Paulo, a maior economia do país e que, em tese, poderia ser referência nacional na prevenção e combate ao feminicídio. Mas o que se vê é exatamente o contrário: políticas insuficientes, disputas políticas e uma escalada de violência que transforma vidas interrompidas em estatísticas.

A capital paulista encerra 2025 com o maior número de feminicídios desde o início da série histórica, em 2015. Foram 53 casos entre janeiro e outubro, ultrapassando todos os anos anteriores — mesmo sem os dados de novembro e dezembro. No estado como um todo, são 207 assassinatos de mulheres no mesmo período, um aumento de 8% em relação ao ano passado.

Esses números, levantados pela GloboNews a partir do Portal da Transparência da SSP, não incluem tentativas — como a brutal cena da mulher atropelada e arrastada por um quilômetro pelo ex-parceiro. Apenas feminicídios consumados. Apenas mortes.

Uma política que não dá conta do problema

São Paulo, governado por Tarcísio de Freitas, poderia se consolidar como laboratório de políticas públicas inovadoras. Mas, no cenário atual, as prioridades parecem estar em outro lugar. A segurança das mulheres naufraga enquanto a agenda política mira eleições, alinhamentos nacionais e disputas partidárias.

Mas é fundamental reconhecer: o problema não é exclusivo de São Paulo. O feminicídio cresce em todas as regiões do país, atravessa classes sociais, religiosidades e idades. A sensação é de que nenhuma política, até agora, foi capaz de frear esse avanço.

Por quê?


É cultural? É falta de política pública? Ou é tudo ao mesmo tempo?

Especialistas afirmam que o feminicídio só se consolida porque existe um terreno fértil para que ele aconteça. Esse terreno envolve:

  • machismo estrutural, enraizado desde a infância
  • naturalização dos abusos e do controle sobre o corpo e a vida da mulher
  • baixa efetividade das políticas de proteção
  • falta de integração entre segurança, saúde, assistência e justiça
  • desigualdade econômica, que aprofunda a dependência financeira
  • impunidade, real ou percebida

A coordenadora do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), Silvana Mariano, lembra que o aumento dos registros também reflete maior preparo das autoridades para reconhecer o assassinato de mulheres como feminicídio — uma mudança importante desde a lei de 2015, que transformou o crime em homicídio qualificado e hediondo.

Mas esse avanço técnico não elimina a tragédia: a violência está, sim, crescendo. E o país falha em interromper o ciclo muito antes de ele chegar ao desfecho fatal.


As próprias vítimas “contribuem para a impunidade”? Uma pergunta que precisa ser feita com cuidado

Essa é uma dúvida recorrente, mas que exige análise profunda. As vítimas não “contribuem” pela impunidade — elas sobrevivem como podem em contextos de medo, dependência financeira, isolamento emocional e ausência do Estado.

Muitas vezes:

  • não encontram vaga em abrigos
  • não conseguem registrar boletim por falta de delegacias especializadas
  • não recebem medidas protetivas eficazes
  • são desacreditadas por familiares, vizinhos e até profissionais
  • dependem economicamente do agressor
  • temem represálias ainda maiores

O problema, portanto, não está nas vítimas, mas na fragilidade das redes que deveriam protegê-las.

Quando um país coloca o peso da solução nos ombros da mulher ameaçada, ele repete exatamente a lógica que sustenta a violência de gênero: a responsabilização individual, quando o problema é estrutural.


O que falta, afinal?

Segundo especialistas, a resposta é clara: falta integração, investimento e prioridade política real.

Medidas isoladas não resolvem. Para reduzir feminicídios, é necessário:

1. Educação de base contra desigualdade de gênero

Campanhas de longo prazo, nas escolas, nas igrejas, na mídia e no ambiente de trabalho.

2. Rede de proteção articulada

Delegacias especializadas funcionando 24h, centros de acolhimento, casas-abrigo e atendimento psicológico.

3. Monitoramento de agressores reincidentes

Uso de tornozeleira, equipes de vigilância, acompanhamento judicial.

4. Investimento em prevenção, não só em repressão

Políticas de renda, emprego, moradia e autonomia econômica são estratégias de segurança pública.

5. Dados reais, transparentes e integrados

Sem estatísticas confiáveis, não há planejamento.

6. Vontade política — e coragem para enfrentar interesses

Sem isso, nada avança.


Quando morre uma mulher, fracassa o Estado

O feminicídio é o ato final de uma cadeia de violências que poderiam — e deveriam — ser interrompidas antes. Cada morte é a prova de que falhamos como sociedade, como governo e como instituições.

E enquanto os números sobem, a resposta pública permanece tímida, reativa, fragmentada. O resultado é o que vemos agora: recordes atrás de recordes, em um país que parece conviver com a tragédia como se fosse normal.

Mas não é. Nunca será.

E o Brasil só começará a virar esse jogo quando tratar o feminicídio como o que realmente é: uma emergência nacional.

Por Damatta Lucas – Imagem Gerada por IA ChatGPT

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