Após dois anos de uma guerra devastadora, Israel e Hamas iniciaram oficialmente o processo de cessar-fogo em Gaza, marcando o encerramento do conflito mais sangrento da região em décadas. O acordo, firmado na noite de quinta-feira (9) no Cairo, sob mediação do Egito, Catar e Estados Unidos, entrou em vigor ao meio-dia desta sexta-feira, horário local. Poucas horas depois, as Forças de Defesa de Israel (IDF) começaram a recuar de áreas estratégicas do enclave.
O gabinete israelense aprovou a primeira fase do plano nas primeiras horas da madrugada, abrindo caminho para a libertação de reféns e a entrada de ajuda humanitária em larga escala. Segundo fontes oficiais, o pacto prevê o fim total das hostilidades, o reestabelecimento gradual da ordem civil em Gaza e a criação de um comitê internacional de monitoramento da paz, que será instalado na fronteira até o fim do mês.
Primeiros sinais de trégua
Em comunicado divulgado na rede X (antigo Twitter), o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou:
“Hoje, Israel dá um passo decisivo para trazer todos os nossos reféns de volta e encerrar uma guerra dolorosa. Faremos isso com firmeza e vigilância.”
Do lado palestino, o líder político do Hamas, Khalil al-Hayya, afirmou que recebeu “garantias concretas” de que a ofensiva israelense cessou por completo e que não haverá retomada das ações militares enquanto o acordo estiver sendo cumprido.
Fontes do Exército israelense confirmaram que as tropas começaram a se reposicionar ao longo das novas linhas de segurança, principalmente ao leste de Khan Younis e no norte de Gaza. Em várias áreas urbanas, moradores voltaram a circular pelas ruas, muitos deles retornando aos escombros de antigas residências.
“Encontrei apenas as paredes do que restou da minha casa, mas o silêncio das armas já é um alívio”, disse o palestino Mahmoud Salem, 42, em entrevista a jornalistas locais.
Detalhes do plano de paz
O acordo faz parte de um plano de 20 pontos apresentado por Washington e revisado por líderes regionais. Entre as medidas mais importantes estão:
- Retirada gradual das tropas israelenses de 47% do território de Gaza em até 24 horas;
- Libertação de todos os reféns israelenses — vivos e mortos — em até 72 horas;
- Anistia e soltura de 2 mil prisioneiros palestinos detidos em Israel;
- Entrada diária de 450 caminhões com alimentos, combustível e suprimentos médicos no enclave;
- Criação de uma força internacional de observadores, com cerca de 200 militares norte-americanos e 150 egípcios, encarregados de supervisionar o cumprimento do cessar-fogo e a distribuição de ajuda.
O plano também prevê a reconstrução de infraestrutura civil, com ênfase em hospitais, redes de energia e moradias, financiada por um fundo internacional de cerca de US$ 8 bilhões, custeado principalmente pela União Europeia e países árabes do Golfo.
Uma guerra que mudou a geopolítica regional
O conflito, iniciado em outubro de 2023, deixou mais de 67 mil palestinos mortos e mais de 400 mil deslocados internos, segundo estimativas de agências humanitárias. Israel perdeu cerca de 1.200 cidadãos nos ataques iniciais e em confrontos posteriores.
Analistas apontam que o fim das hostilidades foi impulsionado não apenas pela pressão internacional, mas também pelo isolamento diplomático crescente de Israel e pelo custo político da guerra para o governo de Benjamin Netanyahu. Já o Hamas, enfraquecido militarmente, viu-se pressionado a aceitar o acordo diante da destruição quase total da Faixa de Gaza.
O presidente norte-americano, Donald Trump, que intermediou o processo, afirmou que a paz em Gaza “é o primeiro passo de um redesenho histórico do Oriente Médio”, destacando que “a prioridade agora é a reconstrução e a estabilidade duradoura”.
O retorno dos deslocados e a reconstrução
Na manhã desta sexta-feira, milhares de famílias palestinas iniciaram uma jornada de retorno às suas cidades, caminhando entre ruínas e poeira. Imagens mostram longas filas de civis voltando à Cidade de Gaza e ao campo de Nusseirat.
A ONU estima que cerca de 70% das construções residenciais foram danificadas ou completamente destruídas.
Em Rafah, engenheiros civis palestinos começaram a reabrir as estradas bloqueadas por destroços e a restaurar os sistemas de abastecimento de água e energia elétrica. A reconstrução será supervisionada por uma missão técnica conjunta da ONU, Egito e União Europeia, que também atuará na segurança de comboios humanitários.
Próximos passos e incertezas
A segunda fase do acordo — prevista para iniciar dentro de dez dias — abordará temas mais complexos, como o desarmamento gradual do Hamas, a formação de um governo interino palestino e o reestabelecimento das fronteiras controladas pela ONU.
Diplomatas reconhecem, no entanto, que a desconfiança entre as partes ainda é alta. Em discurso transmitido na TV israelense, Netanyahu alertou:
“Israel manterá o direito de agir caso o Hamas viole o acordo. Queremos paz, mas não paz a qualquer preço.”
Mesmo assim, a sensação predominante na região nesta sexta-feira era de alívio. Após dois anos de destruição, milhares de pessoas voltaram a sonhar com um cotidiano sem bombardeios. Como disse uma mulher palestina, de pé entre escombros em Beit Hanoun:
“Hoje, o barulho das pás reconstruindo o chão é o som mais bonito que já ouvi.”
Fonte: Imprensa Internacional – Imagem gerada por IA Chat GPT


