O voto do ministro Luiz Fux no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados escancarou um paradoxo que não pode ser ignorado. De um lado, revelou-se contraditório, hesitante, até mesmo covarde diante da gravidade do caso. De outro, justamente por esse gesto destoante dentro do Supremo Tribunal Federal (STF), acabou por demolir uma das principais narrativas da extrema direita: a farsa da “ditadura da toga”.
Se há algo que caracteriza um regime autoritário é a ausência de divergência, o silenciamento completo de qualquer voz dissonante. Pois bem: o voto de Fux, por mais questionável que seja em termos jurídicos e políticos, é a prova cabal de que não existe unanimidade artificial dentro da Corte. Ele mostrou que ministros podem discordar abertamente de Alexandre de Moraes e de outros colegas sem sofrer represálias, algo impensável em ditaduras reais.
E aqui está o ponto que desarma de vez o discurso bolsonarista. Durante anos, a oposição vendeu ao Brasil e ao exterior — com Donald Trump como eco mais barulhento — a tese de que Moraes comandava uma tirania, transformando o STF em instrumento de perseguição política. Com o voto de Fux, essa narrativa ruiu. O que se viu foi justamente o contrário: pluralidade, divergência e democracia funcionando.
É evidente que Fux se contradiz. No “mensalão”, foi linha-dura, punitivista até a medula. Agora, diante de uma tentativa de golpe de Estado, adotou uma postura surpreendentemente branda, contrariando inclusive a gravidade dos fatos já reconhecida pelo próprio Supremo. É uma mudança que beira a incoerência, mas que, paradoxalmente, reforça a vitalidade institucional do tribunal. Em ditaduras, juízes não mudam de opinião; em democracias, podem fazê-lo, mesmo sob o peso da crítica pública.
A oposição comemora o voto de Fux como se fosse uma vitória, mas prefere esconder o óbvio: sua própria narrativa sobre “ditadura da toga” foi pulverizada. Afinal, como sustentar a ideia de tirania quando um ministro da Corte tem liberdade de contrariar seus pares sem ser punido?
No fim, a história dará a Fux um papel desconfortável. Seu voto será lembrado como contraditório e, em muitos aspectos, covarde. Mas também será lembrado como a pá de cal na retórica bolsonarista. Se há democracia no Brasil — e há — ela se expressa justamente nessa contradição que os opositores do regime democrático não conseguem mais negar.
Por Damatta Lucas – Imagem: Fábio RodriguesPozzebom/Agência Brasil


