Por Severino Severo, para Clique PI
A imprensa brasileira nunca foi neutra. Isso não é uma opinião: é um fato histórico. Desde o Império, passando pela República Velha, pela ditadura militar e pelo período democrático recente, a chamada “grande mídia” sempre teve lado. E quase nunca esteve ao lado dos pobres, dos marginalizados, dos trabalhadores e dos territórios abandonados pelo Estado.
Às vésperas das eleições de 2026, esse padrão se repete com intensidade alarmante. Parte expressiva da mídia tradicional parece mais preocupada em construir narrativas para minar governos progressistas, criminalizar políticas sociais e fragilizar instituições democráticas do que em cumprir sua função essencial: informar, fiscalizar o poder e defender a vida.
Narrativas fabricadas e eleições sob ataque
O esforço em vincular o governo federal ao escândalo do Banco Master, em deslegitimar o Supremo Tribunal Federal e em tratar políticas públicas como “sequestro do dinheiro público” revela mais do que jornalismo crítico: revela projeto político.
Quando programas sociais são retratados como privilégios, quando o combate à pobreza é tratado como desperdício, quando a inclusão social é rotulada como ameaça fiscal, a imprensa abandona o jornalismo e assume o papel de partido político informal — sem votos, sem transparência, sem controle social.
A democracia exige imprensa crítica. Mas crítica não é militância seletiva. Crítica não é blindagem de governos alinhados ao mercado e perseguição sistemática a governos populares.
O silêncio cúmplice diante do sangue
Enquanto isso, o Brasil assiste a uma escalada brutal da violência, especialmente no Sudeste, em territórios governados por políticos alinhados à direita e à extrema direita. No Rio de Janeiro, a violência estatal atingiu níveis de barbárie.
A Operação Contenção, deflagrada em outubro de 2025, deixou 122 mortos em apenas dois dias, configurando a operação policial mais letal da história do estado. Nos meses seguintes, os números continuaram a crescer: 329 mortos por armas de fogo em três meses, 520 tiroteios, 220 feridos, além de chacinas em série, muitas iniciadas por ações policiais.
Esse não é o retrato de uma política de segurança pública. É o retrato de uma política de extermínio.
Fernanda: o rosto humano da política de morte
Entre os cadáveres enfileirados na Vila Cruzeiro, uma mulher fechava os olhos do marido morto. O nome dela é Fernanda da Silva Martins. A fotografia rodou o mundo. Mas o mundo seguiu. A vida dela, não.
Fernanda perdeu o companheiro, pai de seus filhos, em uma operação policial marcada por denúncias de execução. O corpo apresentava sinais de tortura: facadas, pescoço quebrado, tiro final nas costas. A resposta do Estado? Silêncio. A resposta da grande imprensa? Espectáculo, sem aprofundamento, sem responsabilização política, sem denúncia estrutural.
Hoje, Fernanda vive com depressão, síndrome do pânico, fome, filhos sem merenda, dependente do Bolsa Família, sem trabalho formal, com escolaridade interrompida. O marido, envolvido com o crime, sustentava a casa porque o Estado nunca ofereceu alternativas reais de renda, saúde e inclusão.
Essa é a engrenagem perversa:
o abandono social empurra para o crime, o crime justifica a violência estatal, e a violência estatal reforça o ciclo de exclusão.
Segurança pública sem política pública é guerra contra pobres
O modelo de segurança baseado em confrontos, operações midiáticas e estatísticas de “inimigos abatidos” não reduz o crime. Ele produz corpos.
Governos estaduais que apostam na lógica da bala como política pública falharam — e continuam falhando — em inteligência, prevenção, educação, assistência social, urbanismo, saúde mental, controle de armas, combate à lavagem de dinheiro e enfrentamento das milícias.
A violência no Rio de Janeiro não é apenas criminal: é política, econômica e institucional. E há indícios recorrentes de conivência, infiltração e simbiose entre Estado e crime organizado. Milícias, corrupção policial, políticos financiados por estruturas criminosas — tudo isso já foi amplamente documentado, mas raramente tratado como escândalo permanente pela grande imprensa.
Imprensa seletiva, democracia fragilizada
Por que a grande mídia não faz editoriais diários denunciando o massacre?
Por que não questiona governadores como questiona o governo federal?
Por que não trata chacinas como crise nacional permanente?
Por que naturaliza a morte de pobres e negros nas periferias?
A resposta é incômoda: porque o projeto editorial dominante no Brasil sempre foi alinhado ao poder econômico, ao mercado financeiro e às elites políticas regionais.
A democracia exige eleições justas, com debate plural, crítica equilibrada e imprensa responsável. O que se vê, porém, é uma imprensa que escolhe lados — e nunca o lado dos menos favorecidos.
Entre a bala e o silêncio
Fernanda sonha em sair do Alemão, montar um pequeno salão, dar futuro aos filhos. Sonhos mínimos, diante de um Estado máximo em repressão e mínimo em direitos.
A fotografia de Fernanda não é apenas uma imagem de luto. É uma denúncia histórica. Ela representa milhares de mulheres, mães, viúvas, filhos e comunidades esmagadas por um modelo de segurança que mata sem resolver, e por uma imprensa que noticia sem transformar.
A democracia brasileira não será destruída apenas por extremistas nas ruas ou políticos autoritários. Ela pode ser corroída, silenciosamente, por uma imprensa que escolhe não denunciar, que escolhe proteger certos poderes e que escolhe transformar política social em crime e morte de pobre em estatística.
Porque, quando a imprensa escolhe o lado do poder contra o povo, ela deixa de ser imprensa.
Ela vira parte do problema.
Imagem Gerada por IA Chat GPT


