O Supremo Tribunal Federal se prepara para um dos julgamentos mais explosivos da história recente do Brasil. O presidente da Primeira Turma do STF, ministro Cristiano Zanin, definiu para 2 de setembro o início do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete réus do chamado Núcleo 1, acusados de orquestrar uma tentativa de golpe de Estado para manter o ex-mandatário no poder após a derrota nas urnas em 2022.
As sessões extraordinárias ocorrerão nos dias 2, 3, 9, 10 e 12 de setembro, e prometem expor, passo a passo, como se deu a suposta articulação contra a democracia brasileira.
A decisão veio logo após o ministro relator Alexandre de Moraes liberar o caso para julgamento, um dia depois da entrega das alegações finais de defesa e acusação. Moraes abrirá a primeira sessão com a leitura de um relatório minucioso, reunindo todas as provas e indícios colhidos ao longo da investigação.
O fator Fux: a pedra no caminho da celeridade
Nos corredores do STF, um nome desperta atenção especial: Luiz Fux. Conhecido por adotar posições frequentemente divergentes da maioria em casos envolvendo Jair Bolsonaro e seus aliados, o ministro pode se tornar um ponto de tensão no julgamento.
Fontes próximas ao tribunal não descartam a possibilidade de que Fux apresente um pedido de vista, instrumento que suspende a análise do caso para que o ministro tenha mais tempo para estudá-lo. Embora previsto no regimento, o pedido de vista pode, na prática, paralisar o julgamento por meses — algo que preocupa profundamente a cúpula do Supremo.
Essa possibilidade ganha relevância diante do objetivo declarado, nos bastidores, de concluir o processo ainda em 2025. A meta é evitar que o caso se arraste e se torne combustível político para as eleições municipais de 2026. Um atraso poderia jogar o julgamento para o ano eleitoral, abrindo espaço para narrativas de perseguição e vitimização por parte de Bolsonaro, que poderia usar o caso como bandeira de campanha indireta.
Fux, que já presidiu o STF, é descrito como um ministro reservado e avesso a pressões externas, mas seu histórico mostra que não hesita em ir contra a corrente majoritária. Em votações passadas, especialmente em casos de forte impacto político, já se alinhou a posições mais cautelosas ou lenientes em relação a réus ligados ao bolsonarismo. Essa postura pode fazer dele o fiel da balança — ou o responsável por empurrar o desfecho para um futuro incerto.
Roteiro do julgamento
Após o relatório de Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, fará a sustentação oral reforçando o pedido de condenação. Em seguida, será a vez das defesas, começando pelo tenente-coronel Mauro Cid — ex-ajudante de ordens de Bolsonaro e delator no caso — e prosseguindo em ordem alfabética.
Somente depois, Moraes apresentará seu voto, indicando se cada acusado deve ser condenado ou absolvido e propondo a pena para cada um.
Se condenado, Bolsonaro poderá enfrentar mais de 40 anos de prisão — embora a execução da pena só ocorra após o trânsito em julgado, quando se esgotarem todos os recursos possíveis.
Defesa fala em “processo viciado”
Nas alegações finais, a maioria dos réus apontou supostas violações processuais, alegando cerceamento de defesa e parcialidade de Alexandre de Moraes. Entre as queixas, citam a dificuldade de acesso a todo o material da investigação, questionam a validade da delação premiada de Mauro Cid e afirmam que provas teriam sido apresentadas de forma tardia.
Acusação reforça papel central de Bolsonaro
A PGR pediu a condenação de todos, destacando que as provas reunidas revelam o papel central de Bolsonaro na tentativa de ruptura institucional. Segundo o procurador-geral, desde a abertura da ação penal, foi produzido um conjunto robusto de evidências capazes de comprovar a tentativa de subversão da ordem democrática.
O julgamento de setembro não será apenas sobre o destino jurídico de Bolsonaro e seu núcleo duro — será também um teste decisivo sobre a capacidade do Estado brasileiro de punir ataques frontais à democracia. E, no meio dessa engrenagem, um único gesto de um ministro poderá decidir se a resposta será rápida… ou se a ferida permanecerá aberta até o ano eleitoral.
Por Damatta Lucas e Equipe do Clique PI – Imagem: ChatGPT


