Lena Rios: Cantora, Radialista, Jornalista e uma Mulher além do seu tempo

Por Damatta Lucas

Era impossível não perceber quando ela entrava num ambiente. Não apenas pelo sorriso largo, ou pela gargalhada solta que precedia a conversa, mas por uma presença rara, cheia de alma, intensidade e verdade. Lena Rios, minha amiga, minha inspiração, minha referência. Partiu nesta segunda-feira, 7 de julho de 2025, aos 75 anos, em Teresina, mas sua arte, sua história e sua força permanecem vivas e pulsantes.

Nascida Maria do Socorro Siqueira Barradas, no dia 16 de agosto — data em que também se comemora o aniversário de Teresina —, Lena, ou Barradinha, parecia predestinada a ser símbolo da cidade. Mas não se limitou ao Piauí. Com uma voz rouca, vibrante, que misturava o lamento e a fúria, a ternura e a rebeldia, Lena Rios conquistou os palcos do Brasil e fincou seu nome na música popular brasileira. Seu talento, contudo, nunca foi domesticado — e talvez por isso tenha sido subestimado em sua própria terra.

Ela foi cantora, jornalista e radialista. Comunicadora nata, rompeu barreiras e driblou preconceitos numa época em que ser mulher, nordestina e artista exigia coragem, resistência e sacrifício. E Lena era feita disso: de uma coragem feroz. Dormiu em calçadas no Rio de Janeiro, sobreviveu à solidão das grandes cidades, enfrentou a depressão, a síndrome do pânico e todo tipo de abandono. Mas jamais se entregou. Nunca abriu mão do que amava: cantar, escrever, comunicar.

Nos anos 1970, teve canções produzidas por nomes lendários como Roberto Menescal, Mazzola, Rildo Hora, Jairo Pires e Carlos Lemos. Gravou músicas inéditas de gigantes como Torquato Neto — seu grande amigo —, Raul Seixas, Luiz Melodia, Jards Macalé, Waly Salomão e João Nogueira. Lena não seguia modismos nem tendências: foi eclética, irreverente, visceral. Não tolerava rótulos. Do samba ao rock, do sertanejo à MPB, sua discografia é prova de um espírito livre que cantava o que sentia, não o que esperavam dela.

Dentre os momentos mais marcantes de sua carreira, está sua participação no VII Festival Internacional da Canção, em 1972, no Maracanãzinho. Em meio a centenas de artistas, Lena brilhou intensamente ao interpretar a canção “Eu sou eu, Nicuri é o Diabo”, ao lado do grupo “Os Lobos”, alcançando o reconhecimento nacional e o respeito de críticos e músicos renomados.

Lena Rios – Rede Social

Gravou discos como “De Tudo um Pouco” (1976), “Lena Rios” (1977), e participou de coletâneas como “Os Grandes Sucessos do FIC 72” e “Sem essa aranha”, pela gravadora Philips. Sua voz atravessou selos como CBS, Polydor e Philips, deixando um acervo sonoro que ainda hoje surpreende pela ousadia, diversidade e força interpretativa.

Como jornalista e radialista, Lena também se destacou. Atuou com coragem e sensibilidade, pautando temas sociais, culturais e políticos com uma visão crítica e sempre afiada. Em todas as redações por onde passou, sua presença era sinônimo de talento e irreverência — uma mulher à frente do seu tempo, que nunca se rendeu ao silêncio nem às convenções.

Lena Rios era múltipla. Era arte, era dor, era luta, era ternura. Sua vida é um hino de resistência e inspiração. Sua ausência física nos deixa um vazio imenso, mas sua trajetória se eterniza na memória afetiva e artística do Piauí, do Brasil e de todos que tiveram o privilégio de ouvi-la cantar ou de ler suas palavras.

A Lena que conheci — a amiga de riso solto, de voz rouca que contava histórias como quem canta — vive agora em cada disco, em cada nota, em cada ouvinte e leitor tocado por sua alma indomável.

Descanse, minha amiga. E continue cantando aí em cima, do jeito que sempre fez aqui embaixo: com o coração inteiro.


Por um amigo, um admirador e uma testemunha do seu brilho.

Imagem de destaque: TV Alepi

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