Lula estende a mão aos evangélicos e busca reescrever o mapa político de 2026

Encontro com o bispo Samuel Ferreira marca ofensiva de Lula sobre o eleitorado bolsonarista, em tentativa de romper hegemonia conservadora nas igrejas.

Em um movimento calculado e de forte simbolismo político, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu as portas do Palácio do Planalto, na quinta-feira (16), para receber o bispo Samuel Ferreira, uma das figuras mais influentes do cenário evangélico brasileiro. O gesto, cercado de orações, presentes e discursos sobre fé e união, vai muito além da cortesia religiosa: trata-se de uma jogada de mestre na tentativa de pavimentar o caminho para a reeleição em 2026.

Ferreira comanda o poderoso Ministério de Madureira, braço mais numeroso da Assembleia de Deus — denominação que, segundo estimativas do IBGE, reúne hoje entre 22 e 25 milhões de fiéis. É, portanto, o coração de um eleitorado que, nos últimos anos, se manteve fiel ao bolsonarismo. Aproximar-se dele é tentar redesenhar a geografia política de um país onde quase um terço da população se identifica como evangélica.

O encontro contou com a presença do advogado-geral da União, Jorge Messias — evangélico e indicado por Lula à vaga de Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal —, além da ministra Gleisi Hoffmann (PT) e do deputado Cezinha de Madureira (PSD-SP), articulador da reunião. A conversa, que se estendeu por mais de duas horas, foi descrita por Lula como “um encontro de fé, emoção e respeito”.

O bispo presenteou o presidente com uma Bíblia e uma edição comemorativa do centenário de sua igreja. Em troca, ouviu de Lula uma reafirmação de valores cristãos como fraternidade, solidariedade e apoio às famílias — temas caros à base evangélica e que o governo tenta resgatar para si, em contraste com o discurso moralista que se consolidou na era Bolsonaro.


Entre fé e estratégia: a nova ponte do Planalto com o rebanho evangélico

A relação entre o governo petista e o clã Ferreira é marcada por altos e baixos. Embora o bispo Samuel e seu pai, o primaz Manoel Ferreira, tenham apoiado Jair Bolsonaro em 2022, Lula jamais fechou as portas. A reaproximação, agora, parece mais sólida — e pragmática.

Samuel, de perfil moderno e conciliador, tem buscado reposicionar a igreja no tabuleiro político. À frente da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil (CONAMAD) desde 2017, ele afrouxou antigos costumes e investiu na expansão internacional da denominação, que hoje possui templos em vários continentes e uma imponente sede mundial na Flórida, inaugurada em 2025.

Essa modernização trouxe também uma visão menos polarizada. “Nosso papel não é dividir, mas trazer paz”, costuma dizer o deputado Cezinha de Madureira, um dos principais porta-vozes do grupo. A frase resume bem a estratégia: manter diálogo com todos os campos políticos, preservando a influência crescente do ministério, que já articula uma dezena de candidaturas parlamentares para 2026.


Madureira: o império discreto que supera até a Universal

O Ministério de Madureira é hoje a mais capilar organização evangélica do país. São cerca de 25 mil templos no Brasil, 34 mil pastores e mais de 200 mil obreiros, formando uma rede que ultrapassa em escala e presença territorial gigantes como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia.

Enquanto Edir Macedo e Malafaia se tornaram símbolos do bolsonarismo mais radical, Samuel Ferreira aposta no silêncio estratégico — e, agora, no diálogo com o Planalto. Essa diferença de postura pode ser decisiva para Lula reconquistar terreno nas periferias urbanas e cidades médias, onde os templos de Madureira têm forte penetração social.


O fator Messias: fé e poder no Supremo

O encontro no Planalto também serviu de pano de fundo para outra movimentação política de peso: a iminente indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Evangélico da Igreja Batista e aliado de confiança do presidente, Messias participou das orações conduzidas por Samuel Ferreira e foi citado como exemplo de “conciliador e homem de fé”.

A escolha tem duplo significado: reforça a presença evangélica nos mais altos escalões da República e, ao mesmo tempo, suaviza resistências de um segmento que frequentemente acusa o governo de afastamento dos valores cristãos.


Entre a cruz e a urna

Com o encontro, Lula tenta algo que poucos presidentes ousaram: disputar a narrativa religiosa em um país profundamente dividido entre fé e política. Se o gesto será suficiente para converter votos bolsonaristas ainda é incerto — mas o simbolismo é inequívoco.

Ao buscar diálogo com líderes que dominam a base evangélica, o presidente sinaliza que 2026 será menos sobre ideologia e mais sobre reconciliação. E, se depender do novo elo entre o Planalto e Madureira, a disputa eleitoral pode, desta vez, começar de joelhos — e terminar nas urnas.

Por Damatta Lucas, com informações G1 e Agência Gov – Imagem: Ricado Stuckert

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