Em uma reviravolta política que surpreendeu Brasília, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou uma vitória estratégica no Supremo Tribunal Federal (STF) após sofrer uma derrota contundente no Congresso Nacional. O episódio, que envolveu o polêmico decreto de aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), havia sido interpretado como um duro revés para Lula — com potencial até para desgastar sua imagem eleitoralmente. No entanto, a decisão do ministro Alexandre de Moraes mudou o rumo da crise.
Ao analisar o caso, Moraes restaurou a maior parte do decreto presidencial, reconhecendo a legalidade das mudanças promovidas por Lula, com exceção de um ponto específico: a taxação sobre o chamado “risco sacado”. Na prática, o Supremo confirmou o poder do presidente da República de alterar alíquotas do IOF por meio de decreto — uma prerrogativa garantida pela Constituição, mas que havia sido desafiada pelo Legislativo com um decreto legislativo derrubando a medida.
Congresso contra-ataca, mas é contido
A crise entre Executivo e Legislativo explodiu em maio, quando Lula editou um decreto aumentando a arrecadação sobre determinadas operações financeiras. A resposta do Congresso foi imediata e dura: senadores e deputados aprovaram um decreto legislativo derrubando a norma presidencial. Para muitos analistas, tratava-se de um símbolo do enfraquecimento político do governo, abrindo margem para questionamentos sobre sua governabilidade e o impacto nas eleições de 2026.
Entretanto, a ofensiva do Congresso foi contida no STF. O ministro Alexandre de Moraes suspendeu as decisões dos dois Poderes — tanto o decreto de Lula quanto a anulação feita pelo Parlamento — e convocou uma audiência de conciliação. Com o fracasso do diálogo, Moraes decidiu monocraticamente, reafirmando que o Executivo tem autonomia para modificar alíquotas do IOF dentro dos limites legais.
Vitória com ressalvas
O único ponto derrubado pelo STF foi o trecho referente ao “risco sacado” — modalidade de crédito usada principalmente por pequenas empresas, em que bancos antecipam pagamentos de vendas a prazo feitas por varejistas. Moraes considerou que, nesse caso, o governo criou uma nova hipótese de incidência do IOF, o que só poderia ser feito por meio de lei aprovada no Congresso, e não por decreto.
Apesar da perda parcial, a equipe econômica comemorou o desfecho. A expectativa do Ministério da Fazenda era arrecadar cerca de R$ 450 milhões em 2025 apenas com o risco sacado, e R$ 3,5 bilhões até 2026. Já o total esperado com o conjunto das medidas era de R$ 31,3 bilhões.
“O STF reafirmou prerrogativas constitucionais importantes do Executivo, num gesto que contribui para a harmonia entre os Poderes e reforça a institucionalidade”, disse o Ministério da Fazenda em nota oficial.
Reequilíbrio entre os Poderes
A decisão do STF representa mais do que um respaldo jurídico: ela sinaliza um novo equilíbrio de forças entre os Poderes da República. O presidente Lula, que havia sido desautorizado pelo Congresso, conseguiu restabelecer parte significativa de sua autoridade via Supremo — um feito raro na política recente.
Para analistas políticos, o episódio revela como o Judiciário pode atuar como mediador em tempos de tensão institucional, e oferece ao Planalto um alívio momentâneo no turbulento xadrez político de Brasília. Com a proximidade das eleições de 2026, qualquer vitória — mesmo parcial — tem peso simbólico. E, nesse caso, a narrativa passou da “derrota humilhante” à “virada estratégica”.
Por Damatta Lucas – Imagem:


