Há uma parte do Brasil que parece ter abandonado qualquer noção de racionalidade política, senso crítico ou compromisso com a vida real. O episódio da caminhada liderada por Nikolas Ferreira em Brasília, mantida sob alertas severos de tempestade, é mais do que uma imprudência logística: é um retrato cru de como o extremismo político transformou a irresponsabilidade em virtude e o fanatismo em identidade.
Enquanto meteorologistas alertavam para o risco de descargas elétricas, o deputado seguiu adiante com a mobilização, como se a física obedecesse ao algoritmo. O resultado foi previsível e trágico: pessoas feridas, pânico, caos. Mas, no lugar de assumir responsabilidade, o parlamentar subiu ao palco para reinterpretar o episódio como “sinal divino”. É o populismo em seu estado mais grotesco: transformar risco em espetáculo e acidente em narrativa messiânica.
Mais grotesco ainda é o culto. Milhares, milhões, seguem, compartilham, defendem e veneram um político cuja principal obra não é legislativa, mas digital. Nikolas Ferreira não se notabilizou por propostas estruturantes, reformas, políticas públicas ou entregas concretas à sociedade. Seu capital político é a mentira viral, a indignação fabricada e a guerra cultural permanente. É a política convertida em performance, onde o parlamentar é influenciador e o Congresso é apenas cenário secundário.
A direita radical brasileira, órfã de Jair Bolsonaro, tenta desesperadamente produzir um novo mito. E, na ausência do líder original, multiplica-se o delírio messiânico. Michelle Bolsonaro, ao declarar que Nikolas seria “separado por Deus para este tempo”, não apenas faz propaganda política — reforça a perigosa teologia do poder, na qual líderes são ungidos, críticas são heresia e democracia vira obstáculo.
Esse messianismo não é inocente. Ele constrói uma blindagem simbólica contra a crítica, legitima o autoritarismo emocional e transforma seguidores em fiéis. A política deixa de ser debate público e vira culto.
Nos bastidores, o bolsonarismo se fragmenta em uma disputa canibal pelo espólio eleitoral. Filhos, ex-primeira-dama, pastores midiáticos, governadores oportunistas e influencers parlamentares brigam pela coroa de um projeto que nunca foi programático, mas personalista. O bolsonarismo sempre foi menos uma ideologia e mais um culto à personalidade. Sem o líder, resta o caos.
E o caos se alimenta de mentira. O episódio do áudio adulterado em vídeo de manifestação — inserindo gritos que não existiram — é apenas mais um exemplo de como a comunicação política da extrema direita naturalizou a fraude. A mentira não é acidente, é método. A manipulação não é desvio, é estratégia.
Estamos diante de um extremismo que não busca governar, mas dividir; não quer resolver problemas, mas manter a guerra; não quer políticas públicas, mas inimigos permanentes. Educação, saúde, desigualdade, clima, fome, violência: tudo isso vira detalhe diante da prioridade máxima — manter a base radicalizada, engajada, furiosa e clicando.
O raio que caiu em Brasília não foi metáfora. Foi realidade. A natureza não obedece a influencer, não negocia com narrativa, não se curva à retórica religiosa. A política da irresponsabilidade, porém, continua vendendo trovões como bênção e feridos como estatística inconveniente.
O problema não é apenas Nikolas Ferreira. O problema é o país que transforma um agitador digital em liderança nacional, que confunde fé com fanatismo, que troca projeto de nação por meme político. O problema é uma sociedade que aceita ser guiada por algoritmos, ressentimentos e pastores de palco.
O Brasil precisa decidir se continuará marchando sob tempestades guiado por messias de likes — ou se, finalmente, voltará a exigir líderes que governem com razão, ciência, responsabilidade e compromisso com a vida real. Porque o trovão não é divino. E a política não pode continuar sendo um culto.
Por Damatta Lucas – Imagem: Chat GPT


