O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) escolheu o tom da ironia para tratar de uma crise de saúde pública que já ceifou vidas no estado que administra. Nesta segunda-feira (6), durante coletiva de imprensa sobre a contaminação de bebidas por metanol – substância altamente tóxica que já intoxicou 192 pessoas e matou 9 em São Paulo –, Tarcísio deu de ombros e brincou: “No dia que começarem a falsificar Coca-Cola, eu vou me preocupar”.
A declaração, feita em tom jocoso, foi proferida logo após uma reunião do Gabinete de Crise criado para enfrentar o surto. O encontro contou com a presença de secretários de Estado e dos principais executivos de gigantes do setor de bebidas, como Bacardi, Diageo e Pernod Ricard, evidenciando a gravidade do problema que, aparentemente, não mereceu seriedade do governador.
A fala revela uma insensibilidade que soa tragicamente familiar na política brasileira. Ela ecoa, de forma perturbadora, as ironias e o escárnio praticados pelo seu ídolo político, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que durante o auge da pandemia de Covid-19, quando milhares de brasileiros perdiam a vida e sofriam com a falta de ar, imitava pessoas em estado de asfixia e dizia, cinicamente, que “não era coveiro”.
Da pandemia ao metanol: O coro da insensibilidade
Enquanto Bolsonaro minimizava uma doença que matou mais de 700 mil brasileiros, Tarcísio agora banaliza uma intoxicação que provoca cegueira, falência múltipla de órgãos e morte. A vítima é diferente, mas a lógica é a mesma: a de que algumas mortes não são dignas de luto ou de uma postura estadista, mas sim de piada.
Bolsonaro, em seus piores momentos, questionava a eficácia de vacinas e tratamentos, ironizava o uso de máscaras e zombava da dor alheia. Tarcísio, ao dizer que a falsificação de bebidas alcoólicas “não é sua praia” e só se preocuparia com um produto de massa como a Coca-Cola, sinaliza que a vida dos cidadãos que consomem as bebidas adulteradas – muitas vezes de menor custo e acessíveis à população mais pobre – não é uma prioridade em sua agenda.
A suposta brincadeira do governador paulista não só falha em reconhecer a dor das famílias enlutadas, mas também desconsidera o pânico social instalado. A população, com medo de consumir um produto que pode ser letal, busca por respostas e ações concretas do poder público, e não por um deboche que a relega a um segundo plano.
A tragédia concreta e a resposta vazia
Enquanto Tarcísio ironiza, os números da tragédia seguem subindo. O Brasil já contabiliza 225 casos de intoxicação por metanol, sendo São Paulo o epicentro absoluto da crise. A fala do governador contrasta brutalmente com a realidade das vítimas que lutam pela vida em UTIs e das famílias que enterram seus entes queridos.
Ao negar, na mesma coletiva, indícios do envolvimento do PCC na adulteração, Tarcísio pode estar certo do ponto de vista policial. No entanto, sua postura geral diante da crise levanta questões sobre seu compromisso em combater o crime organizado que se aproveita da vulnerabilidade da população. A brincadeira sobre a Coca-Cola sugere que, para ele, o problema só existirá quando afetar um símbolo do capitalismo global, e não quando estiver matando brasileiros anônimos.
A herança bolsonarista de governar por meio da provocação e do desdém pela dor parece ter encontrado um herdeiro à altura em Tarcísio de Freitas. A diferença é que, agora, a insensibilidade tem endereço certo: o Palácio dos Bandeirantes, de onde se esperava uma postura de luto, responsabilidade e ação, mas de onde saiu, nesta segunda-feira, apenas mais uma “brincadeira” de mau gosto sobre a morte.
Da Redação – Imagem gerada por IA Chat GPT


