Nova pesquisa estabelece limites semanais de THC para reduzir risco de dependência

Um estudo publicado na revista da Sociedade para o Estudo da Dependência Química trouxe pela primeira vez uma métrica concreta para avaliar o consumo de risco de cannabis. A pesquisa, liderada pela psicóloga Rachel L. Thorne, da Universidade de Bath (Reino Unido), propõe um sistema de “unidades de THC” – análogo ao usado para bebidas alcoólicas – para quantificar o limite a partir do qual aumenta significativamente a probabilidade de desenvolver Transtorno por Uso de Cannabis (TUC).

Segundo o trabalho, cada unidade equivale a 5 mg de tetraidrocanabinol (THC), o principal componente psicoativo da planta. O consumo semanal superior a 6 unidades (30 mg) em adolescentes e 8,3 unidades (41,3 mg) em adultos já eleva o risco de surgimento do transtorno. Acima de 6,45 unidades (32,2 mg) para jovens e 13,4 unidades (67 mg) para adultos, os sintomas tendem a ser moderados a graves.

O TUC caracteriza-se pela perda de controle sobre o uso, negligência de obrigações e sintomas de abstinência, como agitação e insônia. Estima-se que 22% dos usuários venham a desenvolvê-lo em algum momento.

Consumo diário de um baseado já representa risco
Com base em dados do estudo CannTeen, que acompanhou 150 usuários regulares ao longo de um ano, os pesquisadores calcularam que fumar um baseado médio (cerca de 7 mg de THC) por dia já ultrapassa os limites considerados de baixo risco para qualquer faixa etária.

Apesar da amostra reduzida e da necessidade de estimar o THC consumido – já que não houve análise laboratorial do material usado –, o modelo mostrou alta sensibilidade, identificando corretamente 90% dos casos de TUC.

Limites como orientação, não como regra absoluta
Os autores ressaltam que as cifras não substituem avaliação clínica, mas podem servir como diretriz para triagem e orientação. “Estabelecer limites de menor risco ajuda quem deseja reduzir danos ao optar por consumir abaixo dessas referências”, afirmam. No entanto, deixam claro: apenas a abstinência garante segurança total contra o TUC.

Especialistas externos veem valor na proposta, mas alertam para ressalvas. “Limites são úteis para comunicar riscos, mas há o perigo de que consumo abaixo deles seja interpretado como inofensivo”, pondera Jakob Manthey, pesquisador do Centro Médico Universitário de Hamburgo, que não integrou o estudo.

Desafio prático: usuários não sabem a potência do que consomem
Um obstáculo significativo à aplicação dessas orientações é a falta de regulamentação. Em mercados ilegais ou no cultivo caseiro, o teor de THC é desconhecido. “Sem rotulagem padronizada, os consumidores não têm como medir com confiança sua ingestão”, observa Manthey.

Para o neurofarmacologista britânico David Nutt, a pesquisa é um avanço crucial, mas deve vir acompanhada de regulação. “Precisamos de um mercado com produtos claramente rotulados, como acontece com o álcool. Só assim o usuário poderá gerenciar seus riscos”, defende.

As unidades de THC emergem, assim, como uma ferramenta para transformar um debate muitas vezes abstrato sobre “uso excessivo” em orientações quantificáveis – ainda que preliminares e sujeitas a nuances individuais.

Com informações da Sociedade para o Estudo da Dependência Química – Imagem: Chat GPT

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