Um dos episódios mais sombrios da crônica policial do Piauí volta a ganhar novo capítulo. O chamado caso dos envenenamentos de Parnaíba — que já deixou oito mortos e abalou toda uma comunidade no litoral piauiense — pode sofrer nova reviravolta após a defesa de um dos réus apresentar provas que podem mudar o rumo da investigação.
Tudo começou com uma tragédia que parecia isolada, mas acabou revelando uma teia de mortes, suspeitas, prisões e contradições.
A mulher que foi acusada e inocentada
Em 2024, o nome de Lucélia Maria da Conceição Silva, de 53 anos, circulou em todos os noticiários do estado. Ela foi apontada como a responsável por envenenar dois meninos, irmãos de oito e sete anos, em Parnaíba. Vizinhos, conhecidos e até familiares acreditaram que ela teria oferecido cajus contaminados às crianças. Ela foi presa e a sua casa foi destruída por moradores.
Mas os exames periciais mudaram tudo: não havia qualquer vestígio de veneno nas frutas. A Justiça do Piauí considerou improcedente a ação penal, absolvendo Lucélia e expondo o erro de uma acusação precoce.
Mas o pior ainda estava por vir.
A descoberta que abalou uma família inteira
Meses depois, novas vítimas começaram a surgir — todas com laços familiares entre si e sintomas semelhantes: náusea, vômito, convulsões, desmaios e morte em poucos minutos. Em questão de meses, nove pessoas da mesma família e uma vizinha foram contaminadas. O veneno usado: terbufós, uma substância extremamente tóxica, usada em agrotóxicos e capaz de matar com mínimas doses.
Entre as vítimas, estavam crianças pequenas — algumas com menos de dois anos de idade.
A Polícia Civil prendeu o casal Francisco de Assis da Costa Pereira e Maria dos Aflitos Silva, apontados como os principais responsáveis pela série de envenenamentos. Eles se tornaram réus por 11 crimes, entre homicídios qualificados e tentativas de homicídio.
A nova reviravolta: o réu também teria sido envenenado
Agora, em 2025, o caso ganha um novo rumo. A defesa de Francisco de Assis apresentou um laudo pericial que comprova a presença da substância terbufós no próprio organismo dele.
Para o advogado Herbert Assunção, esse resultado muda completamente a interpretação dos fatos:
“O exame comprova que Francisco também foi vítima de envenenamento. A Polícia e o Ministério Público omitiram essa informação, tentando incriminá-lo injustamente”, afirmou o defensor.
O advogado sustenta ainda que não há provas concretas de que Francisco tenha aplicado o veneno, e que todas as evidências apontam para Maria dos Aflitos, sua companheira.
“Mesmo que ele fosse apaixonado por ela e tentasse protegê-la, os dados técnicos mostram que ele não foi o autor”, completou.
A resposta da Polícia: contaminação cruzada
A Polícia Civil do Piauí rebateu a versão da defesa. Segundo o delegado Abimael Silva, responsável pelo caso, o próprio laudo foi anexado ao inquérito pela investigação, e o órgão não omitiu nenhuma prova.
Para a perícia criminal, a presença do veneno no corpo de Francisco seria resultado de contaminação cruzada pela pele, e não ingestão.
“O terbufós é um veneno tão potente que o simples contato com a pele já pode deixar vestígios. Acreditamos que ele foi contaminado de forma cutânea. É uma contaminação diferente da das vítimas fatais”, explicou o delegado.
Ele lembra que outras pessoas também foram contaminadas apenas por contato físico com as vítimas — como no caso de Maria Jocilene Silva, uma das mortas, cujo suor continha resíduos tóxicos do veneno.
As vítimas de uma tragédia familiar
Entre agosto de 2024 e janeiro de 2025, o veneno ceifou vidas de forma devastadora. As vítimas fatais confirmadas são:
- Manoel Leandro da Silva, 18 anos (filho de Maria dos Aflitos e enteado de Francisco);
- Francisca Maria da Silva, 32 anos (filha de Maria dos Aflitos);
- Ulisses Gabriel da Silva, 8 anos;
- João Miguel da Silva, 7 anos;
- Maria Gabriela da Silva, 4 anos;
- Lauane da Silva, 3 anos;
- Igno Davi da Silva, 1 ano e 8 meses;
- Maria Jocilene da Silva, 32 anos (ex-nora de Maria dos Aflitos).
Outros dois sobreviventes — uma adolescente de 17 anos e um menino de 11 — ainda lutam para se recuperar física e emocionalmente da tragédia.
Um caso que o Piauí jamais vai esquecer
As mortes, as contradições e os novos laudos reacendem o interesse público em um caso que chocou o Piauí pela crueldade e pela complexidade.
Agora, com a defesa alegando manipulação de provas e a Polícia mantendo firme sua tese de envenenamento premeditado, o que se pergunta é: será que vem aí uma nova reviravolta no caso mais macabro da história recente do litoral piauiense?
Da Redação – Imagem: Chat GPT


