Em uma votação histórica e amplamente repudiada pela opinião pública, a Câmara dos Deputados aprovou a polêmica PEC da Blindagem (apelidada nas redes de “PEC da Bandidagem”), por 344 votos a favor e 133 contra. O texto, que dificulta drasticamente a investigação e a prisão de parlamentares, gerou uma onda de revolta. Dias depois, um fenômeno raro tomou conta do Congresso: o arrependimento público de deputados de base e oposição que, cedendo a pressões, aprovaram uma proposta da qual hoje se envergonham.
A emenda constitucional estende o foro privilegiado a presidentes de partido e retira do STF o poder de autorizar investigações sem o aval do Congresso. Mas o estopim da crise foi a aprovação, um dia depois, de um dispositivo que reinstaura o voto secreto para processos contra deputados e senadores, um claro retrocesso na transparência.
A seguir, as notas íntegras e os mea culpa daqueles que se dizem arrependidos:
OS DEPOIMENTOS DA CULPA
1. Deputado Pedro Campos (PSB-PE) – Líder do partido na Câmara
Em um vídeo, o líder do PSB admitiu o erro e revelou a estratégia que falhou. Ele ingressou até com um pedido no STF para anular a votação, alegando “manobra” para aprovar o voto secreto.
NOTA NA ÍNTEGRA:
“Nós do campo progressista, tínhamos duas posições possíveis. Uma era dizer que não aceitássemos discutir nenhum ponto dessa PEC, e arriscar que a anistia passasse, além de ver pautas importantes do governo, como a tarifa social de energia e o Imposto de Renda, boicotadas, ou discutir o texto da PEC, tentar retirar os maiores absurdos e buscar um caminho para barrar a anistia e avançar as pautas populares… A PEC passou do jeito que nós não queríamos, inclusive com uma manobra para retomar o voto secreto.”
2. Deputado Merlong Solano (PT-PI)
Em uma nota de retratação no Instagram, o petista pediu desculpas publicamente ao povo e ao partido.
NOTA NA ÍNTEGRA:
“Não pensem que foi uma decisão fácil. Na política, por vezes somos levados a fazer escolhas difíceis, que exigem renúncias e sacrifícios… O voto favorável à PEC da Blindagem aconteceu para ‘preservar’ o diálogo entre a sigla e a presidência da Câmara.”
3. Deputada Silvye Alves (Ex-União-GO)
A deputada foi a que mais chocou ao relatar ameaças e coerção de colegas “influentes”. O episódio foi tão grave que a levou a anunciar a desfiliação de seu partido.
DEPOIMENTO NA ÍNTEGRA (em vídeo):
“Eu segui minha intuição e votei contra. A partir desse momento eu comecei a receber muitas ligações de pessoas influentes do Congresso Nacional… Disseram que com a votação contra eu receberia muitas retaliações… Fui covarde e mudei meu voto… Não queria deixar esse registro em minha passagem na política.”
4. Deputado Thiago de Joaldo (PP-SE)
Em um vídeo gravado dentro do carro, o deputado admitiu que a Casa “errou na mão” e prometeu trabalhar para barrar a proposta no Senado.
NOTA NA ÍNTEGRA:
“Tenho ciência que é impossível agradar a todos no Congresso Nacional. Mas nesse caso é preciso reconhecer que a Câmara errou na mão e o remédio pode ter saído mais letal do que a enfermidade que se queria tratar… Reconheço que falhei, peço desculpas e trabalharei para corrigir.”
O LEGADO DE UMA VOTAÇÃO MANCHADA
O cenário que se desenha é de um Congresso dividido entre a pressão dos bastidores e o clamor popular. Os depoimentos dos arrependidos pintam um quadro sombrio de articulação política, ameaças e decisões tomadas sob coerção.
A PEC segue agora para o Senado Federal, onde sua tramitação será o próximo grande teste. A pergunta que fica, ecoando nas palavras dos próprios deputados, é: vale a pena blindar a política para governar? O custo, como ficou claro, pode ser a própria credibilidade da instituição perante a nação.
Por Damatta Lucas – Imagem: ChatGPT


