O cinismo em carta aberta — Michelle Bolsonaro insulta a inteligência do povo brasileiro

Por Damatta Lucas

No último sábado (12), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro protagonizou mais um episódio vergonhoso do bolsonarismo ao ler, durante um evento no Acre, uma carta pública endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O gesto, que poderia sugerir um chamado legítimo ao diálogo institucional, revelou-se uma manobra oportunista, cínica e profundamente desrespeitosa à inteligência do povo brasileiro.

Michelle, com uma retórica embalada em falsa doçura e apelo à paz, acusa o governo Lula de ser o responsável pela crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, culminando no tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros imposto por Donald Trump — medida que entrará em vigor em 1º de agosto. A ex-primeira-dama tenta, sem o menor pudor, atribuir a Lula a culpa por uma decisão arbitrária de um presidente estrangeiro. Um absurdo.

É preciso lembrar — e repetir quantas vezes for necessário — que a escalada desse conflito não começou em Brasília, e muito menos no Planalto. A origem está exatamente no quintal político da própria Michelle. Seu marido, Jair Bolsonaro, investigado e prestes a ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado, é o principal entusiasta da campanha de Donald Trump à reeleição. Mais do que isso: há registros, declarações e articulações públicas do clã Bolsonaro incentivando o ex-presidente americano a retaliar o Brasil, numa tentativa de desestabilizar o governo Lula.

O filho do casal, Eduardo Bolsonaro, deputado federal e parceiro de primeira hora do trumpismo internacional, não apenas apoia Trump abertamente, como também tem mantido encontros estratégicos com figuras da ultradireita mundial, incluindo Steve Bannon — um dos articuladores da extrema direita global.

Eduardo tem atuado como uma espécie de embaixador informal da extrema direita internacional, organizando eventos como a CPAC Brasil (versão nacional da Conservative Political Action Conference), onde recebe figuras como Santiago Abascal, líder do partido de extrema direita Vox (Espanha), e Javier Milei, presidente da Argentina. Além disso, mantém relações próximas com políticos da Hungria, Itália, Polônia e Estados Unidos, reforçando um eixo ideológico reacionário que prega o negacionismo climático, o conservadorismo moral extremo e o ataque sistemático às instituições democráticas. Essa rede articulada, com base em fake news e discursos antissistema, está longe de representar os interesses do povo brasileiro — ela serve a um projeto de poder global ultraconservador, do qual Eduardo é peça-chave.

Mas Michelle prefere apostar na ignorância. Acredita que basta sorrir e ler frases com tom de ternura para convencer a opinião pública de que está agindo em nome do povo. Ignora os crimes do marido. Ignora que o Brasil teve sua democracia vilipendiada por uma tentativa de golpe em 8 de janeiro. Ignora que há dezenas de provas de que Jair Bolsonaro estimulou ataques ao STF, ao Congresso Nacional e ao sistema eleitoral brasileiro.

E mais: tem a ousadia de afirmar que o Brasil é “visto como uma ditadura disfarçada de democracia”. É como se Michelle tivesse apagado da memória os anos em que ela própria se beneficiou de um governo que perseguiu jornalistas, atacou instituições, desmontou políticas públicas e promoveu um discurso de ódio contra as minorias e a ciência.

A ex-primeira-dama agora quer posar de estadista, de conselheira da paz, de voz da moderação. Mas seu discurso é tão vazio quanto perigoso. É mais um movimento de quem busca manter vivo o bolsonarismo num momento em que a Justiça avança para desmontar a rede de crimes e mentiras que sustentou esse projeto político.

Michelle não quer diálogo. Quer palco. Quer escamotear as responsabilidades da própria família e reescrever a história recente do país como se nada tivesse acontecido. Seu gesto é uma afronta à memória das vítimas da pandemia, à democracia atacada e à soberania nacional que seu grupo político pisoteou.

A verdadeira carta que o Brasil precisa ler é a que será escrita pela Justiça — com a caneta da Constituição e a tinta da verdade.

Imagem: PL

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