O despertar digital da esquerda: redes sociais, Congresso e uma nova disputa de narrativas

Por Damata Lucas

Algo inédito está acontecendo no Brasil: após anos de hegemonia digital da direita e da extrema-direita, a esquerda brasileira finalmente ocupou o espaço das redes sociais de forma mais estruturada, combativa e estratégica. O movimento não se deu por acaso. Ele surgiu como reação direta a decisões do Congresso Nacional que geraram forte indignação popular: a derrubada do decreto do IOF que previa aumento para investimentos de alta renda, o avanço de pautas que dificultam a taxação dos super-ricos e a aprovação da ampliação do número de deputados federais — de 513 para 531 — em contradição com o discurso de contenção de gastos defendido por setores da própria Casa.

Esses episódios serviram como catalisadores de uma mobilização surpreendente. Em vez da apatia digital que marcou períodos anteriores, o que se viu foi uma ação coordenada e orgânica de parlamentares, influenciadores e militantes progressistas. O movimento ganhou nome, voz e rosto. A campanha “BBB” — sigla para Bancos, Bilionários e Bets — dominou as redes com hashtags como #CongressoInimigoDoPovo, #HugoMottaTraidor e #AgoraÉAVezDoPovo.

Segundo dados da consultoria Nexus, mais de 4,5 milhões de postagens foram registradas entre X, Instagram e Facebook desde o início da mobilização, em 24 de junho. Só no X (ex-Twitter), foram mais de 92 milhões de visualizações em postagens associadas à campanha, com quase 1 milhão de compartilhamentos. O termo “Congresso da Mamata” lidera as citações, seguido de perto por menções diretas ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), acusado de trair pautas populares e favorecer elites econômicas.

Mas por que esse fenômeno é relevante?

A esquerda sempre enfrentou dificuldades nas redes sociais. Desde antes da eleição de Jair Bolsonaro, passando por sua presidência e mesmo após sua saída do Planalto, a extrema-direita dominou com folga os ambientes digitais. Essa vantagem se dava tanto pela capilaridade das suas redes quanto pela linguagem direta, polarizadora e emocional, capaz de viralizar com rapidez. Por anos, a esquerda permaneceu acuada, fragmentada e até mesmo hostilizada nas plataformas.

Agora, isso começou a mudar.

Segundo a Quaest, foram mais de 4,4 milhões de menções ao Congresso nas redes apenas nos últimos dias, com 61% das postagens criticando os parlamentares. Pela primeira vez, parlamentares governistas postaram mais que os opositores: foram 741 publicações contra 378, invertendo uma lógica que se repetia há anos. Vídeos impulsionados com inteligência artificial, críticas ao sistema tributário regressivo e narrativas de justiça fiscal começaram a circular com mais força — e com efeitos reais.

A rede Globo, que tradicionalmente mantém uma postura crítica aos governos de viés progressista, chegou a dedicar quase sete minutos do Jornal Nacional para criticar a movimentação nas redes e ecoar a visão de economistas alinhados ao mercado financeiro. Mas diante da resposta feroz do público, a emissora recuou: a reportagem não foi republicada em outras plataformas e foi retirada das redes sociais do grupo.

Esse movimento revela algo essencial: a esquerda, pela primeira vez em muito tempo, conseguiu moldar a agenda pública nas redes. Ainda não com a força da direita, cujos influenciadores — como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) — continuam atingindo números muito superiores (200 milhões de views em um único vídeo, por exemplo), mas o salto qualitativo é inegável. Como destaca Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, trata-se de “uma onda até certo ponto inédita de mobilização mais ligada à esquerda”.

Contudo, o cenário ainda é instável. A disputa digital não garante hegemonia política e pode ser facilmente rebatida. A direita já voltou ao jogo, apropriando-se da mesma pauta da taxação para reforçar o discurso de irresponsabilidade fiscal do governo. Além disso, os dados da Palver mostram que a maioria dos comentários nos grupos públicos de WhatsApp e Telegram ainda são críticos ao governo Lula, embora a avaliação tenha melhorado desde o fim de junho.

Outro ponto que merece atenção é o teste das ruas: no próximo dia 10 de julho, está convocada uma manifestação na Avenida Paulista com apoio das redes de esquerda. O tamanho do ato poderá indicar se a mobilização digital tem potencial de se converter em força social palpável. Também será um termômetro do alcance dessa nova linguagem política da esquerda: será ela capaz de construir um campo de disputa sustentável, ou se trata de um momento isolado de indignação?

É fundamental, porém, que esse novo ativismo digital não incorra nos mesmos erros que marcaram a extrema-direita: a propagação de fake news, ataques pessoais, manipulação de dados e desinformação. O ambiente virtual deve ser usado para informar, mobilizar e construir caminhos democráticos — e não para destruir pontes e degradar o debate público.

Essa virada simbólica pode ser o início de uma nova etapa. A esquerda aprendeu, enfim, a jogar o jogo das redes — e agora está em campo. Resta saber se conseguirá manter o fôlego, preservar a credibilidade e se firmar como um polo alternativo à máquina de desinformação que dominou o país na última década.

O Brasil, nesse cenário, agradece.

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