Um dos maiores escândalos de corrupção empresarial e política da atualidade no Brasil envolve o dono da rede Ultrafarma, levantando suspeitas de práticas que podem ter drenado bilhões dos cofres públicos paulistas. Mais do que um caso isolado, o episódio joga luz sobre a política de isenções fiscais e benefícios tributários adotada durante o governo de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e nome cada vez mais projetado pela imprensa conservadora como presidenciável em 2026.
A lógica das isenções fiscais em São Paulo
Desde que assumiu o Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio consolidou uma política agressiva de desonerações e incentivos fiscais. Estimativas apontam que o governo deixou de arrecadar bilhões de reais com medidas que, sob o argumento de atrair investimentos e manter empresas no estado, acabaram favorecendo grandes grupos econômicos.
Esse modelo, no entanto, não é neutro: ao abrir mão de receitas, o Estado fragiliza sua capacidade de financiar serviços essenciais — como saúde, educação e segurança —, enquanto concentra benefícios em poucos setores empresariais.
A fraude de R$ 1 bilhão
A falta de combate à corrupção culminou na descoberta, na semana passada, de uma fraude de R$ 1 bilhão pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP). O esquema facilitava o ressarcimento de créditos de ICMS a empresas varejistas, mediante o pagamento de propina para acelerar e inflar os valores liberados.
A operação resultou na prisão do dono da Ultrafarma, Sidney Oliveira (que já está solto), e do diretor estatutário da rede Fast Shop, Mário Otávio Gomes, também liberado. Apesar da gravidade do caso, o governador não se pronunciou publicamente para esclarecer à sociedade.
Também envolvidos no esquema, o auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto teve a prisão temporária prorrogada. O Tribunal de Justiça não informou o período. Enquanto o fiscal Marcelo de Almeida Gouveia teve a prisão preventiva mantida, conforme o G1.
O coração do esquema
As investigações da Operação Ícaro apontam que auditores-fiscais da Secretaria da Fazenda e Planejamento (Sefaz-SP) eram responsáveis por operar o sistema de corrupção. O principal acusado é o auditor Arthur Gomes da Silva Neto, apontado como o arquiteto do esquema.
Segundo o MPSP, Arthur mantinha contato direto com executivos de grandes empresas para negociar a manipulação dos créditos de ICMS. Um delator revelou que a Ultrafarma sonegava até 60% das vendas.
As irregularidades só foram descobertas porque o MP detectou movimentações financeiras suspeitas em nome de Arthur e de sua mãe, Kimio Mizukami da Silva, sócia da empresa de fachada Smart Tax. Em apenas dois anos, o patrimônio declarado por Kimio saltou de R$ 411 mil para R$ 2 bilhões, em grande parte por meio de criptomoedas.
No caso da Ultrafarma, há farto material probatório, incluindo e-mails em que o auditor usava inclusive o certificado digital da empresa para fazer requerimentos junto à Fazenda. Sidney Oliveira era copiado nas mensagens, evidenciando, segundo o MP, sua ciência do esquema. Ambos foram soltos após pagarem fiança de R$ 25 milhões, mas Arthur segue preso.
O silêncio da grande imprensa
Se em outros contextos a mídia tradicional não hesita em estampar escândalos de corrupção em manchetes, a postura diante do caso Ultrafarma tem sido tímida. O motivo é claro: Tarcísio de Freitas é hoje o nome preferido da imprensa de direita para 2026. Qualquer narrativa que arranhe sua imagem pode comprometer esse projeto político, daí a tentativa de minimizar a repercussão do caso.
O custo das isenções bilionárias
Mesmo diante da descoberta do esquema, o governo paulista mantém o programa de isenções fiscais. Para 2024, está prevista a renúncia de R$ 14 bilhões. Esse valor deve crescer até alcançar R$ 85,6 bilhões em 2026, o equivalente a 22% da receita estadual, de acordo com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) aprovada na Assembleia Legislativa.
A gestão Tarcísio deve abrir mão de arrecadar:
- R$ 78,7 bilhões em ICMS;
- R$ 6,6 bilhões no IPVA;
- R$ 257 milhões no ITCMD (Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação).
Enquanto isso, a previsão de saldo positivo para 2026 é de apenas R$ 700 milhões — valor irrisório diante da dimensão das isenções. A oposição denuncia a falta de critérios claros e contrapartidas para os beneficiados.
Pedágios e multas pesam no bolso do cidadão
A renúncia bilionária de arrecadação contrasta com medidas que penalizam diretamente a população. Até 2030, o governo paulista prevê instalar 58 novos pedágios, sendo 29 no sistema Free Flow (cobrança automática).
Pelo modelo, quem não pagar a tarifa em até 30 dias será multado em R$ 195,23 e perderá 5 pontos na CNH. A penalidade é aplicada pela ANTT, e mesmo após o pagamento da multa, a dívida do pedágio continua válida — podendo levar à negativação do CPF do motorista.
O risco político
O episódio coloca em xeque o discurso de Tarcísio de gestor moderno e eficiente. À medida que a investigação avança, a associação entre seu governo, isenções bilionárias sem transparência, e escândalos de corrupção empresarial pode corroer sua imagem antes de 2026.
Conclusão
O escândalo da Ultrafarma não é apenas uma questão criminal. Ele revela a engrenagem de um modelo fiscal e político que sacrifica a arrecadação pública, concentra benefícios em grandes grupos e fragiliza o Estado. A blindagem midiática pode retardar o desgaste, mas dificilmente esconderá por muito tempo o impacto social e político de um governo que, ao abrir mão de bilhões, assiste ao surgimento de um esquema de corrupção que movimentou cifras igualmente bilionárias.
Por Damatta Lucas – Imagem: Chat


